Publicidade infantil: Conar não é lei.

palhacoMuito interessante ver a notícia de que “o Conar decide apertar o cerco contra a publicidade infantil”. Isso não foi uma decisão do Conar. Isso foi uma resposta necessária à pressão da sociedade, de entidades de defesa do consumidor, do Ministério Público, de Conselhos de classe profissionais e Federais, de organizações não governamentais e políticos que lutam há anos pela defesa da infância através da regulamentação da publicidade infantil, visto que o Conar sempre se mostrou ineficaz neste sentido. É importante ressaltar que, neste quase um ano de existência do Movimento Infância Livre de Consumismo, fomos atacadas de todas as formas depreciativas pelos representantes da publicidade por meio da fala de representantes do Conar e das associações de publicitários. E o discurso era sempre o mesmo: que a culpa era dos pais que não dão limites aos filhos, afirmando ainda que as regras deliberadas pelo código de autorregulamentação publicitária são suficientes. Esta mudança nas regulamentações do Conar mostra que as crianças, como sempre dissemos, estavam desprotegidas dos abusos da publicidade infantil.

Sem dúvida seria um avanço importante se o Conar agisse. Contudo, a grande maioria dos casos julgados pelo Conar são de constrangimento de empresas, que nada mais é que empresa falando mal da concorrente. Raros casos colocam a questão dos valores em pauta, está tudo no boletim deles. Eles levam meses para julgar um mérito de valor e só funciona quando há denúncia. Sem denúncia eles não tiram campanhas do ar e, quando o fazem, a campanha não está mais passando, como no caso de uma de nossas denúncias da Páscoa de 2012, julgada apenas em junho , quando já estava fora do ar. Ou seja, o código de autorregulamentação publicitária existe – podemos até dizer que é bom – mas não funciona. Sem dúvida essa atitude é uma comprovação de que a regulamentação da publicidade infantil precisava de revisão, e a mudança na autorregulamentação do Conar é uma delas. Vamos aguardar março para ver como vai ficar a tal autorregulamentação da publicidade infantil.

Entretanto, é importante considerar que parece bonitinho, só que não é bem assim. O Conar é composto por profissionais inteligentes e experientes que estão querendo evitar a regulamentação legal. É um jogo de xadrez. A pressão foi tão grande (sociedade, entidades de defesa do consumidor, conselhos, Ministério Público e ongs) que eles estão com medo de perder a autorregulametação – ou seja, aquela feita pelos próprios publicitários. Estavam em xeque. Uma classe que se autorregulamenta exclusivamente não é confiável. A autorregulamentação pode até existir, achamos que deve, desde que existam outros meios de regulamentação. Importante também frisar que o Conar não vai proibir nada. O código da entidade não é lei, portanto não proíbe nada. Falar em proibição, neste caso, é uma grande falácia.

De nossa parte, continuaremos a questionar o governo pela discussão e aprovação do PL que tramita há 12 anos sem sucesso. A quem interessar possa: estamos de olho! Esta mudança na regulamentação do Conar mostra que os abusos da publicidade infantil são muitos e precisam de controle externo, além da autorregulamentação publicitária.

Entretanto, há momentos em que nos perguntamos se a verdade por trás dessa mudança do Conar não seria um acordo politico de bastidores para que o PL seja engavetado sob o pretexto de que a autorregulamentação está se tornando mais restritiva. O problema, senhores políticos, é que não adianta criar regras que não sejam punitivas. O Conar divulga que proíbe, mas não proíbe. As penalidades do Conar se resumem a dar uma advertência e recomendar – apenas recomendar – alteração ou retirada da peça publicitária. Ora, isso não é penalidade, é um acordo tomando café. Isso não inibe ninguém de colocar a peça publicitária abusiva no ar e deixar o barco correr sem nenhuma punição, ainda mais sabendo que o Conar demora meses para dar seu parecer. Não acreditamos em regulação sem multas pesadas aplicadas pelo Estado e com rapidez, não três anos depois. O Conar é um departamento que limita a si mesmo, é a raposa cuidando do galinheiro. Impossível pedir isenção da raposa ou que ela proteja as galinhas…

Por fim, senhores políticos (e pedimos também atenção do Idec, Procon, Ongs e todos os demais envolvidos), que fique claro que o que queremos é uma lei. Conar não é lei.

 

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[imagem: Getty Images/royalty free]

Rio+20: pela primeira vez, os pais na mesa de debates!

Em meados de 2007, conheci o projeto Criança e Consumo. Naquela época, ainda não havia me dado conta da influência da propaganda na vida das crianças. Por isso, acredito e entendo que a maioria das pessoas não perceba. Natural, afinal as propagandas são meticulosamente criadas e preparadas para nos influenciar sem que a gente perceba. E se influenciam a nós, adultos, sem que percebamos, imaginem as crianças.

Três anos depois, em 2010, no Fórum Criança e Consumo, em São Paulo, pensei: por que os pais não estão lá, fazendo parte das mesas de debate? O fórum foi muito bom, mas saí com aquele sentimento de que faltou alguma coisa. Num papel de perguntas do fórum, eu coloquei que senti falta dos pais na mesa de debates. Afinal, não são eles que vão promover as mudanças fundamentais? E pensei: vamos colocar os pais no debate!

Não era uma tarefa fácil. Eu e mais algumas amigas já saimos do fórum pensando em como articular os pais. Criamos alguns projetos que, embora tenham sido bem sucedidos, não chegaram a atingir esse objetivo. E foi no Facebook, alguns meses depois, que esse projeto começou a nascer, com a criação de um grupo de discussão sobre o tema Consumismo e Publicidade Infantil, que hoje conta com mais de 1.200 integrantes. Estou convicta de que a internet é um grande agente transformador, agregador e definitivo na transformação de nossa sociedade.

Através desse grupo, descobrimos a fan page de uma associação de publicitários que, embora diga que TODOS são responsáveis por cuidar das crianças, na verdade queria responsabilizar exclusivamente os pais pelo controle daquilo que as crianças veem na mídia. E o grupo imediatamente repudiou essa postura. As crianças não são responsabilidade exclusiva dos pais. Crianças mal influenciadas são um problema de toda a sociedade, pois toda a sociedade paga o prejuízo causado por cidadãos mal formados. A Lei também é clara: a responsabilidade sobre o bem-estar emocional e físico das crianças é da família, da sociedade e do Estado.

Essa associação não desejava dialogar, mas, sim, ter espaço para expor apenas seus pontos de vista sobre a questão, de modo a manipular as opiniões a respeito do assunto. E foi aí que decidimos que precisávamos agir e fazer alguma coisa para alertar os pais que, assim como nós, nunca haviam se dado conta da influência negativa e predatória da publicidade infantil.

Em uma semana, ultrapassamos os LIKES que os publicitários levaram 3 meses para conseguir. Em consequência desse trabalho, fomos então convidados pelo Alana/Projeto Criança e Consumo para falar na Rio+20. Naquele momento, dois anos depois do fórum, havia sido atingido o objetivo de representar os pais na mesa de debates pela primeira vez – e na Rio+20, a conferência Mundial de Desenvolvimento e Sustentabilidade. Não poderia ser mais emblemático!

Chega a Rio+20. Nosso movimento já estava bem maior, mas, ainda assim, acabara de completar apenas 3 meses. Fiquei muito emocionada de ser parte integrante da Rio+20, ainda mais como mãe e abordando o tema publicidade infantil, consumo e sustentabilidade. Me deu o sentimento bom de saber que não sou capaz de mudar o mundo, mas que estou fazendo a minha pequena parte. E ao contrário do que muitos disseram sobre a Rio+20, tudo o que vi mostrou que tem muita gente atuando em suas comunidades. E é isso que estamos fazendo através desse grupo, lutando para mudar o nosso mundo.

Durante o evento, pudemos ver relatos como o de um chileno que contou que, em sua comunidade, que fica bem afastada dos grandes centros, o consumismo já deixa sua marca e influencia crianças e jovens de forma assustadora. Mostrou também que, assim como nós, muitas outras pessoas acreditam que as crianças precisam ser protegidas e cuidadas para que tenhamos a chance de ter um mundo melhor e mais humano. Especialistas em legislação, psicologia, defesa do consumidor e educação infantil comprovaram a importância de se impor regras rígidas para a publicidade infantil no Brasil. E o mais incrível era que nós, os pais, estávamos lá, na mesa, pela primeira vez, para mostrar que estamos nesta luta. Mostrar nossas dificuldades em enfrentar este mercado, enfrentar a invasão da publicidade através do mundo mágico e sem limites possibilitado pela ilusão da televisão.

Depois do evento, fomos abordados por várias pessoas que fizeram questão de nos apoiar e dizer que concordam que esta luta é necessária e urgente. Pude ver em todos os olhares o quanto é importante existir um movimento de Mães defendendo a infância. Em muitos olhos pude ver emoção, a mesma emoção que eu estava sentindo. Temos no Brasil leis suficientes que apoiam a infância, mas elas não estão sendo capazes de coibir os abusos da publicidade que se baseia numa autorregulamentação inócua e que somente nos prova, todos os dias, que os interesses financeiros estão acima de qualquer interesse que defenda e proteja as crianças. E agora nós entramos no debate para ficar e exigir que o Estado faça a sua parte, regulamentando a publicidade infantil no Brasil.

[fonte: http://infancialivredeconsumismo.com/index.php/rio20-pela-primeira-vez-os-pais-na-mesa-de-debates-2/ ]

 

Amanhã, estaremos na Rio+20!

Amanhã, estaremos na Rio+20 representando o movimento Infância Livre de Consumismo juntamente com importantes organizações que se preocupam em preservar e proteger a infância. Um momento realmente importante já que pela primeira vez, os pais terão representação nos debates. E isso é fundamental, afinal,  é na família e nos pais, que as crianças e a sociedade vão começar a mudar! São os pais os empreendendores do futuro! E a mudança só começará de verdade, a partir de nós!

#publicidadeinfantil

Consumismo é uma praga difícil de combater…

Como mãe, eu posso ver diariamente o desastre que é a publicidade voltada para crianças. Não somente com meus filhos. O consumismo é generalizado nas ruas, nas escolas, nas famílias. Acontece que ao contrário do que os publicitários alegam, que basta os pais controlarem o que os filhos assistem e consomem, eu posso afirmar que não é simples assim. E olha que eu não sou uma mãe ausente que deixa os filhos na frente da TV (seja por comodidade ou por necessidade, não cabe julgar isso agora). Eu trabalho em casa e fico com eles em todos os momentos. Ao contrário da maioria das crianças, só foram para a escola aos 3 anos de idade (hoje em dia é muito comum a ida para creche aos 6 meses). Aqui em casa tem hora para ver TV, o canal é selecionado, os desenhos razoavelmente controlados, eu raramente assisto novela , assim como raramente frequento shopping centers e lanchonetes de fast food. Além disso, não sou uma viciada tecnológica: não tenho o celular mais moderno, só troco quando realmente necessito e não possuo ou me esforço para ter os últimos
lançamentos de gadgets e eletrônicos. Ou seja, não pautamos nossa vida exclusivamente no consumo. Meus filhos, tiveram seu primeiro video game, após os 6 anos de idade, o que também é raro, muito raro, e eles não ganham tudo o que pedem, mesmo quando podemos dar. Porque não é questão de poder financeiramente que pesa na nossa decisão, o que pesa é o que vai significar o excesso de qualquer coisa na vida deles.
Mesmo diante de tudo isso, eles chegam na escola e encontram amigos que tem 200 jogos de video game, enquanto meus filhos só tem 3. Chegam em casa, e quando ligam a TV para ver desenho, são bombardeados com mais de 10 comerciais por intervalo. E mesmo já tendo aprendido como são seus pais e que a maioria das propagandas MENTE (sim, metem muito), ainda assim, eles têm seu desejo de consumo despertado pelas propagandas feitas técnicamente para encantá-los.
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Pegando o gancho dos 10 comerciais num mesmo intervalo, vamos imaginar a seguinte cena: 10 propagandas lindas, milimetricamente preparadas para te convencer a querer e a apreciar aquilo que você não quer ou precisa,  dizendo, sim, sim, sim, você pode, você merece, quem é legal tem que ter…. aí chega a mãe e diz apenas não…10 e puros nãos. Um não seco, duro, frio e sem nenhum passarinho colorido ou aparato técnico neurolinguístico que ajude aquela mãe a competir com SIM`s tão tentadores.
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Não é uma competição igual.
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E há muito mais o que dizer a respeito disso. ConsumISMO é um grande mal. Eu não quero que meus filhos cresçam pautando sua felicidade na quantidade do que possuem ou consomem. Porque consumir é tão efêmero quanto o uso de drogas, é um prazer momentâneo, acompanhado de um grande vazio. Consumismo, é consumir mais do que necessitamos e até o que não queremos.
Além de fazer mal à nossa vida e torná-la uma sucessão de frustrações, gera um lixo absurdo que não temos mais onde colocar e retira infinitos recursos da natureza.
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Não, não é esse futuro que quero para meus filhos. Por isso defendo uma infância livre de propagandas que falem diretamente com as crianças. E quando alguém alega que isso é censura ou tirar a liberdade de expressão, lembro sempre do quanto é falso dizer que uma prato de comida pode ser facilmente trocado por um copo de achocolatado. É isso que a propaganda faz, com nossos filhos e com as mães que arduamente se esforçam para fazer o filho comer algo saudável. Isso é fazer uso responsável da liberdade de expressão?
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E por fim, temos um grande exemplo que foi a publicidade de cigarros proibida há mais de 20 anos. Quem é da minha geração se lembra das propagandas de cigarro com todo tipo de esporte  e vida saudável (cigarro, esporte e vida saudável?). Hoje nos soa absurdo. Pois essa semente do absurdo foi plantada lá atrás e tenho certeza, foi um passo fundamental para a forma como nossa sociedade enxerga o cigarro hoje. Enxerga como ele é. O mesmo cigarro que já foi sinônimo de vida bem sucedida, hoje é sinônimo de doenças graves e proibido em lugares fechados. Estou certa que tivemos um grande ganho, e poupamos a última geração de crescer vendo o cigarro de forma tão equivocada. Assim é com publicidade infantil, não ter será grande engano.
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As crianças não geram renda tampouco tem maturidade para decidir sobre o próprio consumo. Usar a ingenuidade delas para convencer os pais e para criar nelas desejos desnecessários é uma maldade e uma irresponsabilidade com o futuro da nossa sociedade.
Agora eu pergunto, se para uma família que a mãe passa um tempo acima da média com os filhos, já é dificil, imagina para aquelas famílias que não têm esta possibilidade? Consideremos que a maioria da nossa população tem na
TV seu único entretenimento  onde se instala um mundo de fantasia a ser almejado e copiado. Famílias essas onde a maioria dos pais enfrenta 14 horas de trabalho mais 4 de condução para dar uma vida minimamente digna para sua família. Eles tem condições de controlar e orientar o que é visto de publicidade infantil?
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Recentemente, a Telesena está veiculando uma propapaganda com o RESTART, dando uma viagem para Orlando e 5 figurinhas da banda. Isso é certo? Telesena não é título de capitalização? Por que a propaganda de um título de capitalização está sendo claramente direcionada às crianças e jovens se eles não são maiores de idade? Como a família vai controlar que o jovem não gaste 5 reais na compra deste produto sem que eles saibam?
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Botar a culpa na família é fácil. E uma ótima desculpa para encher os publicitários e as empresas de dinheiro. E as nossas crianças que se danem, vamos faturar!
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–este post faz parte da blogagem coletiva #infancialivredeconsumismo —

Por uma infância sem consumismo!

A internet é realmente uma revolução. E quando usada para o bem, é maravilhosa. Existe um projeto de lei, que tramita há 10 anos, com o intuito de proibir a veiculação de publicidade direcionada ao público infantil. Parece radical, parece censura? Mas não é. Lembram-se da publicidade para cigarros? A propaganda de cigarro gerou a mesma polêmica e só ganhamos com a ausência das “caras de pau” das empresas e publicitários que insistiam em associar cigarro a esporte e vida saudável e bem sucedida. Uma reportagem com fumantes famosos confirma que a maioria fumou para ser moderno e se inserir no grupo social que desejavam. Hoje se arrependem pois não conseguem se livrar do vicio. Assim é a publicidade infantil. No futuro teremos criancas com a vida pautada na satisfação exclusiva pelo consumo. Comprar é viciante e a insatisfação compulsiva já se trata nos consultorios e com medicação tarja preta como antidepressivos e ansiolíticos, porque hoje, quem não consome, não faz parte da turma moderna, descolada e bem sucedida. Qualquer semelhança com o cigarro é mera coincidência?

Para completar ,  a Associação de Agências de Publicidade, criou uma ação que pretende parecer dizer que todos somos responsáveis pela infância.  À primeira vista, a gente entende que a intenção da campanha é chamar todos à reflexão mas não é isso. A campanha empenhou-se em culpabilizar exclusivamente os pais pelo controle do que os filhos assistem na TV, como se as empresas não tivessem responsabilidade nenhuma sobre o que fabricam, vendem e anunciam, e as agências de publicidade sobre suas ações de marketing para promover qualquer tipo de produto e serviço direcionado ao público infantil. Uma ação com título dúbio, com atitudes dúbias, com intenções dúbias, assim como é a publicidade voltada para crianças que não têm condições de distinguir o que é bom para elas, o que é realidade, o que é mentira e o que manipulação. Nós adultos somos ludibriados, imaginem as crianças!

Os pais ativistas da internet se uniram e reagiram na hora. E a ABAP tratou-os com um desrespeito e desprezo absurdo, apagando suas mensagens na página da campanha, manipulando os comentários, banindo comentaristas que se opunham ao que eles queriam propagar. E ainda dizendo que nós, pais, queremos censurar a propaganda e impedir a liberdade de expressão da pobre publicidade. Liberdade de expressão só deles, basta ver as regras de participacão do seu site que a gente vê a cara ditatorial e demagógica de suas intenções. Mas uma coisa importante de se tentar entender, é o que a publicidade espera dos pais quando os culpabiliza. Afinal, o que querem que façamos: ficamos em casa cuidando do lixo propagandeado excessivamente às crianças ou saimos para trabalhar como loucos para poder consumir o que eles anunciam? Fiquei confusa.

O que eles não esperavam , era encontrar pais instruídos, informados e prontos para defender o bem estar de seus filhos respondendo na mesma moeda: criaram um site para divulgar a importância de se botar um freio na farra da publicidade infantil. E o site dos pais, entitulado INFÂNCIA LIVRE DE CONSUMISMO, recheado de depoimentos, artigos técnicos, reportagens, charges e imagens  relacionadas ao tema, atingiu, em apenas 3 dias, o mesmo número de simpatizantes e apoiadores que o site da ABAP levou 1 mês para conseguir.

E em 5 dias, o site Infância Livre, conseguiu ultrapassar o site da ABAP, que vale lembrar, é mantido por uma agência de publicidade contratada, o que não acontece com a ação dos pais da internet. Isso nos leva a pensar em outras coisas. Por que a ABAP faria uma ação tão desastrosa? Por que usaria profissionais tão amadores? Por que não teria o menor constrangimento em agir com tão pouca ética com os usuários do site? Será que isso se resume em apenas uma questão: eles subestimam as famílias? Os pais? E acham que somos realmente uma massa tola e manipulável sem força nenhuma para reagir?

Hoje, a publicidade é autorregulamentada pelo CONAR – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária e isso é péssimo para a nossa sociedade a começar pelo fato que o conselho de ética da entidade tem apenas 19 pessoas representam a sociedade civil, dentre eles, seis jornalistas, três advogados e apenas um médico, enquanto as outras 136 pessoas representam anunciantes ou veículos de comunicação. Isso prova, na base, o tamanho do problema que é o controle da publicidade brasileira que está longe de defender os interesses da sociedade.

Por isso, esse grupo de mães e pais, que defende a infância, convida a todos a conhecer e CURTIR  esta iniciativa no Facebook . Ela tem o intuito de informar e mostrar os argumentos que levam a ver essa necessidade tão grande de se proteger nossos filhos dos malefícios de uma propaganda que é estratégicamente pensada e elaborada para encantar, que não os respeita, que os engana, que os faz acreditar numa falsa sensação de alegria e determina o que se tem como fator primordial de status social desde a mais tenra idade.  E que ao repensar a publicidade, estamos pensando na forma como estamos consumindo o planeta, já que o consumismo está na contramão da educação para o futuro e da sociedade mais sustentável que buscamos.

 

Seria ele o pai da teoria do consumo?

“A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo nossa forma de vida, que tornemos a compra e uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual, a satisfação do nosso ego, no consumo. Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas a um ritmo cada vez maior.”

Victor Lebow, analista de vendas, em meados dos anos 50

Esta frase é muito interessante porque mostra como é o real ritmo do sistema consumista em que vivemos. Pelo qual somos envolvidos ou que nos deixamos envolver.

Eu tinha escrito pouco neste post mas depois eu mesma fiquei refletindo sobre esta frase e me perguntei: será que essa é uma frase que os publicitários aprendem na escola?

Ou que os projetistas ouvem em suas empresas?

Poque essa frase explica tanta coisa!

Explica porque o sistema nos incentiva a consumir. Hoje fui ao Banco e vi uma propaganda de um cartão FERRARI. Quer coisa mais inutil? Mas é “vendida” como algo EXCLUSIVO, importante, sem o qual não somos valorizados como “merecemos”.

Merecer é a palavra do consumo. Nós MERECEMOS!

E aí compramos, compramos, compramos.

Essa frase explica porque os produtos querbram á toa e não duram nada! Eles não foram feitos para durar, oras!

Explica também porque se criam produtos novos como os sabonetes que tiram cheiro natural da vagina, clareadores de axila, sapato com salto para crianças, enfim…. coisas que criam necessidades de coisas que  na verdade, nunca precisamos.

Criar necessidade. Este é um termo que em qualquer cursinho chulé de vendas, é fácil escutar.

Eu vou colocar este Victor Leboux na boca do sapo! :)

Consumismo Criminoso?

bartPara variar, esse assunto começou no Twitter.
Mencionei que achava um absurdo a propaganda que vi, num canal pago infantil, dos bonecos dos Simpsons, feitos para crianças. Afinal, se tem algo que não tem sentido, é achar que o desenho dos Simpsons seja direcionado às crianças. Só a Globo para achar que Simpsons é programa infantil e colocar na grade da manhã! E agora essa propaganda do boneco na TV paga. Aquilo é desenho de adulto. A não ser que queira seu filho imitando o Bart Simpson e arrotando como o pai dele.

Outro ponto mencionado é relativo à propaganda e produtos voltados para o público infantil como o famoso Mc Lanche Feliz e seus brinquedos. Não vou dizer que não compro, que não levo meus filhos e que eles nao gostam. Mas tem um limite enorme aqui em casa. É controlado mesmo. E eles nunca se acostumaram a ver um lanche nesta lanchonete como algo obrigatório ou essencial. É uma tranquilidade, passar na porta e ninguém falar nada. Temos que encontrar o equilíbrio na criação dos filhos, esse é o grande desafio. Mas eu conheço mais de uma criança que tem TODA coleção de brinquedos do McLanche. Uma vez, um casal amigo estava no McD de manhã, porque o filho queria um brinquedo recém lançado.

O problema é o incentivo subliminar ao consumismo que a atitude dos pais ainda vem respaldar no fato de não haver limites para propaganda infantil. Aí, no futuro, temos adultos depressivos, que não se sentem satisfeitos com nada que tem, sempre querem mais e não há satisfação. Porque a industria da publicidade quer é isso mesmo: que a gente queira novidades o tempo todo. Compre, compre, compre….

Fora isso, o consumismo tem consequências mais graves como relata  André Trigueiro em excelente entrevista à CBN onde ele comprova que Consumismo faz com que jovens cometam mais crimes.

Ouça a impressionante entrevista:

Não conseguiu, tente clicando aqui:
http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/andre-trigueiro/2007/07/22/CONSUMISMO-FAZ-COM-QUE-JOVENS-COMETAM-MAIS-CRIMES.htm

E se pergunte a partir de agora se realmente a propaganda sem controle voltada para o público infantil, que não tem condições de discernir sobre o que é certo ou errado, bom ou ruim, deve continuar acontecendo livremente nos meios de comunicação, principalmente nos intervalos dos programas direcionados às crianças.

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Vida nua, vida besta, uma vida

mulherovoPor Peter Pál Pelbart
Ao reduzir a existência ao seu mínimo biológico, o biopoder contemporâneo nos transforma em meros sobreviventes.
O contexto contemporâneo se caracteriza por uma nova relação entre o poder e a vida. Por um lado, uma tendência que poderia ser formulada como segue: o poder tomou de assalto a vida. Isto é, ele penetrou todas as esferas da existência, e as mobilizou inteiramente, pondo-as para trabalhar. Desde os gens, o corpo, a afetividade, o psiquismo, até a inteligência, a imaginação, a criatividade, tudo isso foi violado, invadido, colonizado, quando não diretamente expropriado pelos poderes. Mas o que são os poderes?
Digamos, para ir rápido, com todos os riscos de simplificação: as ciências, o capital, o Estado, a mídia. Sabemos, no entanto, que os mecanismos diversos pelos quais eles se exercem são anônimos, esparramados, flexíveis, rizomáticos. O próprio poder tornou-se “pós-moderno”: ondulante, acentrado, reticular, molecular. Com isso, ele incide diretamente sobre nossas maneiras de perceber, de sentir, de amar, de pensar, até mesmo de criar. Se antes ainda imaginávamos ter espaços preservados da ingerência direta dos poderes (o corpo, o inconsciente, a subjetividade) e tínhamos a ilusão de preservar em relação a eles alguma autonomia, hoje nossa vida parece integralmente subsumida a tais mecanismos de modulação da existência.
Até mesmo o sexo, a linguagem, a comunicação, a vida onírica, mesmo a fé, nada disso preserva já qualquer exterioridade em relação aos mecanismos de controle e monitoramento, se é que alguma vez tal exterioridade fosse cabível. Para resumi-lo numa frase: o poder já não se exerce desde fora, nem de cima, mas como que por dentro, pilotando nossa vitalidade social de cabo a rabo. Não estamos mais às voltas com um poder transcendente, ou mesmo repressivo, trata-se de um poder imanente, produtivo. Como o mostrou Foucault, um tal biopoder não visa barrar a vida, mas tende a encarregar-se dela, intensificá-la, otimizá-la. Daí nossa extrema dificuldade em situar a resistência, já mal sabemos onde está o poder, e onde estamos nós, o que ele nos dita, o que nós dele queremos, nós nos encarregamos de administrar nosso controle, e o próprio desejo está inteiramente capturado. Nunca o poder chegou tão longe e tão fundo no cerne da subjetividade e da própria vida como nessa modalidade contemporânea do biopoder.
É onde intervém o segundo eixo que seria preciso evocar, sobretudo em autores provenientes da autonomia italiana. Resumo tal tendência da seguinte maneira. Quando parece que “está tudo dominado”, como diz um rap brasileiro, no extremo da linha se insinua uma reviravolta: aquilo que parecia submetido, controlado, dominado, isto é, “a vida”, revela no processo mesmo de expropriação, sua potência indomável.
Tomemos apenas um exemplo. O capital precisa hoje não mais de músculos e disciplina, porém de inventividade, de imaginação, de criatividade, de força-invenção. Mas essa força-invenção, de que o capitalismo se apropria e que ele faz render em seu benefício próprio, não só não emana dele, como no limite poderia até prescindir dele. É o que se vai constatando aqui e ali: a verdadeira fonte de riqueza hoje é a inteligência das pessoas, sua criatividade, sua afetividade, e tudo isso pertence, como é óbvio, a todos e a cada um. Tal potência de vida disseminada por toda parte nos obriga a repensar os próprios termos da resistência.
Poderíamos resumir esse movimento do seguinte modo: ao poder sobre a vida responde a potência da vida, ao biopoder responde a biopotência, mas esse “responde” não significa uma reação, já que o que se vai constatando é que tal potência de vida já estava lá desde o início. A vitalidade social, quando iluminada pelos poderes que a pretendem vampirizar, aparece subitamente na sua primazia ontológica. Aquilo que parecia inteiramente submetido ao capital, ou reduzido à mera passividade, a “vida”, aparece agora como reservatório inesgotável de sentido, manancial de formas de existência, germe de direções que extrapolam as estruturas de comando e os cálculos dos poderes constituídos.
Seria o caso de percorrer essas duas vias maiores como numa fita de Moebius, o biopoder, a biopotência, o poder sobre a vida, as potências da vida
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1. Mas aqui isto será feito sob um crivo particular, o do corpo. Pois tanto o biopoder como a biopotência passam necessariamente, e hoje mais do que nunca, pelo corpo. Assim, proponho trabalhar aqui três modalidades de “vida”, isto é, três noções de vida, acompanhados de sua dimensão corporal correspondente, percorrendo de um lado a outro a banda de Moebius mencionada.
O “muçulmano”
É preciso começar pelo mais extremo -o “muçulmano”. Retomo brevemente à descrição feita por Giorgio Agamben a respeito daqueles que, nos campos de concentração, recebiam essa designação terminal
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2. O “muçulmano” era o cadáver ambulante, uma reunião de funções físicas nos seus últimos sobressaltos
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3. Era o morto-vivo, o homem-múmia, o homem-concha. Encurvado sobre si, esse ser bestificado e sem vontade tinha o olhar opaco, a expressão indiferente, a pele cinza pálida, fina e dura como papel, já começando a descascar, a respiração lenta, a fala muito baixa, e feita a um grande custo…
O “muçulmano” era o detido que havia desistido, indiferente a tudo que o rodeava, exausto demais para compreender aquilo que o esperava em breve, a morte. Essa vida não humana já estava excessivamente esvaziada para que pudesse sequer sofrer
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4. Por que os detidos dos campos chamavam de “muçulmano” aqueles que tinham desistido de viver, já que se tratava sobretudo de judeus? Porque entregava sua vida ao destino, conforme a imagem simplória, preconceituosa e certamente equivocada de um suposto fatalismo islâmico: o “muslim” seria aquele que se submete sem reserva à vontade divina.
Em todo caso, quando a vida é reduzida ao contorno de uma mera silhueta, como diziam os nazistas ao referir-se aos prisioneiros, chamando-os de “Figuren”, figuras, manequins, aparece a perversão de um poder que não elimina o corpo, mas o mantém numa zona intermediária entre a vida e a morte, entre o humano e o inumano: o sobrevivente. O biopoder contemporâneo, conclui Agamben, reduz a vida à sobrevida biológica, produz sobreviventes. De Guantánamo à Africa, isso se confirma a cada dia.
Ora, quando cunhou o termo de biopoder, Foucault tentava discriminá-lo do regime que o havia precedido, denominado de soberania. O regime de soberania consistia em fazer morrer e deixar viver. Cabia ao soberano a prerrogativa de matar, de maneira espetacular, os que ameaçassem seu poderio, e deixar viverem os demais. Já no contexto biopolítico, surge uma nova preocupação. Não cabe ao poder fazer morrer, mas sobretudo fazer viver, isto é, cuidar da população, da espécie, dos processos biológicos, otimizar a vida. Gerir a vida, mais do que exigir a morte.
Assim, se antes o poder consistia num mecanismo de subtração ou extorsão, seja da riqueza, do trabalho, do corpo, do sangue, culminando com o privilégio de suprimir a própria vida
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5, o biopoder passa agora a funcionar na base da incitação, do reforço e da vigilância, visando a otimização das forças vitais que ele submete. Ao invés de fazer morrer e deixar viver, trata-se de fazer viver, e deixar morrer. O poder investe a vida, não mais a morte -daí o desinvestimento da morte, que passa a ser anônima, insignificante. Claro que o nazismo consiste num
cruzamento extremo entre a soberania e o biopoder, ao fazer viver (a “raça ariana”) e fazer morrer (as raças ditas “inferiores”), um em nome do outro.
O biopoder contemporâneo, segundo Agamben -e nisso ele parece seguir, mas também “atualizar” Foucault- já não se incumbe de fazer viver, nem de fazer morrer, mas de fazer sobreviver. Ele cria sobreviventes. E produz a sobrevida. No contínuo biológico, ele busca até isolar um último substrato de sobrevida. Como diz Agamben: “Pois não é mais a vida, não é mais a morte, é a produção de uma sobrevida modulável e virtualmente infinita que constitui a prestação decisiva do biopoder de nosso tempo. Trata-se, no homem, de separar a cada vez a vida orgânica da vida animal, o não-humano do humano, o muçulmano da testemunha, a vida vegetativa, prolongada pelas técnicas de reanimação, da vida consciente, até um ponto limite que, como as fronteiras geopolíticas, permanece essencialmente móvel, recua segundo o progresso das tecnologias científicas ou políticas. A ambição suprema do biopoder é realizar no corpo humano a separação absoluta do vivente e do falante, de zoè e biós, do não-homem e do homem: a sobrevida”
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6.
Fiquemos pois, por ora, nesse postulado inusitado que Agamben encontra no biopoder contemporâneo: fazer sobreviver, produzir um estado de sobrevida biológica, reduzir o homem a essa dimensão residual, não humana, vida vegetativa, que o chamado “muçulmano” dos campos de concentração, por um lado, e o neomorto das salas de terapia intensiva, por outro, encarnam.
A sobrevida é a vida humana reduzida a seu mínimo biológico, à sua nudez última, à vida sem forma, ao mero fato da vida, à vida nua. Mas engana-se quem vê vida nua apenas na figura extrema do “muçulmano”, sem perceber o mais assustador: que de certa maneira somos todos “muçulmanos”. Até Bruno Bettelheim, sobrevivente de Dachau e Buchenwald, quando descreve o comandante do campo, qualifica-o como uma espécie de “muçulmano”, “bem alimentado e bem vestido”. Ou seja, o carrasco é ele também, igualmente, um cadáver vivo, habitando essa zona intermediária entre o humano e o inumano, máquina biológica desprovida de sensibilidade e excitabilidade nervosa. A condição de sobrevivente, de “muçulmano”, é um efeito generalizado do biopoder contemporâneo, ele não se restringe aos regimes totalitários, e inclui plenamente a democracia ocidental, a sociedade de consumo, o hedonismo de massa, a medicalização da existência, em suma, a abordagem biológica da vida numa escala ampliada.
O corpo
Tomemos a título de exemplo o superinvestimento do corpo que caracteriza nossa atualidade. Desde algumas décadas, o foco do sujeito deslocou-se da intimidade psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o corpo. A subjetividade foi reduzida ao corpo, a sua aparência, a sua imagem, a sua performance, a sua saúde, a sua longevidade. O predomínio da dimensão corporal na constituição identitária permite falar numa “bioidentidade”. É verdade que já não estamos diante de um corpo docilizado pelas instituições disciplinares, como há cem anos atrás, corpo estriado pela máquina panóptica, o corpo da fábrica, o corpo do exército, o corpo da escola. Agora cada um se submete voluntariamente a uma ascese, científica e estética a um só tempo. É o que Francisco Ortega chama de bioascese
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7. Por um lado, trata-se de adequar o corpo às normas científicas da saúde, longevidade, equilíbrio, por outro, trata-se de adequar o corpo às normas da cultura do espetáculo, conforme o modelo das celebridades.
Como o diz Jurandir Freire Costa, a obsessão pela perfectibilidade física, com as infinitas possibilidades de transformação anunciadas pelas próteses genéticas, químicas, eletrônicas ou mecânicas, essa compulsão do eu para causar o desejo do outro por si, mediante a idealização da imagem corporal, mesmo às custas do bem-estar, com as mutilações que o comprometem, substituem finalmente a satisfação erótica que prometem pela mortificação auto-imposta
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8. O fato é que abraçamos voluntariamente a tirania da corporeidade perfeita, em nome de um gozo sensorial cuja imediaticidade torna ainda mais surpreendente o seu custo em sofrimento.
A bioascese é um cuidado de si, mas, à diferença dos antigos, cujo cuidado de si visava a bela vida, e que Foucault chamou de estética da existência, o nosso cuidado visa o próprio corpo, sua longevidade, saúde, beleza, boa forma, felicidade científica e estética, ou o que Deleuze chamaria a “gorda saúde dominante”. Não hesitamos em qualificá-lo, mesmo nas condições moduláveis da coerção contemporânea, de um corpo fascista -diante do modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana. Que, ademais, o corpo tenha se tornado também um pacote de informações
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9, um reservatório genético, um dividual estatístico, com o qual somos lançados ao domínio da biossociabilidade (“faço parte do grupo dos hipertensos, dos soropositivos” etc.), isto só vem fortalecer os riscos da eugenia. Estamos às voltas, em todo caso, com o registro da vida biologizada… Reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo automodulável, é o domínio da vida nua. Continuamos no âmbito da sobrevida, da produção maciça de “sobreviventes”, no sentido amplo do termo.
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1 – No rastro de Foucault, Deleuze, Negri, Lazzarato e outros, tal mapeamento foi tentado em “Vida Capital”, São Paulo, Iluminuras, 2003.
2 – G. Agamben, “Ce Qui Reste d´Auschwitz”, Paris Payot & Rivages, 1999.
3 – J. Améry, “Par Delà le Crime et le Chatiment”, Arles, Actes Sud, 1995
4 – P. Levi, “É Isto um Homem?”, Rio de Janeiro, Rocco, 2000.
5 – M. Foucault, “La Volonté de Savoir”, Paris, Gallimard, 1976, p 179.
6 – G. Agamben, “Ce Qui Reste d´Auschwitz”, op. cit, p. 205.
7 – Francisco Ortega, “Da Ascese à Bioascese, Ou do Corpo Submetido à Submissão do Corpo”, in “Imagens de Foucault e Deleuze”, Rio de Janeiro, DP&A, 2002.
8 – Jurandir Freire Costa, “O Vestígio e a Aura: Corpo e Consumismo na Moral do Espetáculo”, Rio de Janeiro, Garamond, 2004.
9 – Paula Sibília, “O Homem Pós-orgânico”, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 2002.

Campanha contra comerciais para as Crianças

O site é em inglês a iniciativa não é nossa mas a idéia é universal:

Acabar com as propagandas destinadas ao público infantil.

A campanha uma coligação profissionais da área médica, educadores, advocacia e pais preocupados com os malefícios e as consequências de marketing para crianças.

Em apoio aos direitos de crianças crescerem – e aos direitos de pais em educar-lhes – sem serem influenciados pelo consumismo desenfreado.

Mas nós não estamos atrás! Olhem o excelente portal nacional que trata do assunto: Criança e Consumo . E um de seus artigos fala da ilicitude do marketing infantil e coloca a legislação brasileira como uma das mais avançadas do mundo neste quesito.

Vamos deixar nossos filhos menos tempo na frente da TV?