TENHO PRECONCEITOS SIM, E DAÍ? Parte II

SITUAÇÃO B) Uma pessoa (branca) vem voltando para casa, tarde da noite, observa que, no seu caminho está um grupo de homens pretos parados na esquina, em uma rua deserta.
Reação 1 – Toma-se de pânico. “Ai meu Deus, um “bando de pretos”, a essa hora, na rua, na certa irão me assaltar! Mudarei meu caminho – Isso é PRECONCEITO!
Reação 2 – Toma-se de pânico. Ai meu Deus, um “bando de pretos”. Claro que vão me assaltar. Certamente com violência, pois é da natureza deles! Mudarei meu caminho – Isso é RACISMO!(lembrando aos leitores que chegaram agora, que essa situação fictícia se passa no início do séc. XX)
Perceberam a sutileza?
O PRECONCEITO baseia-se na estatística, na probabilidade, com base na observação da realidade. O RACISMO não precisa (e nem deseja) de dados, histórico ou lógica. É doença da alma!
Na década de 60, uma série de crimes abalou a capital paulista. Mulheres jovens eram estupradas e mortas por um “maníaco” nas noites da cidade. Conhecido como “bandido da luz vermelha”, graças a testemunhas que lhe escaparam das garras, logo sua descrição se tornou pública. Era louro! Pois bem, enquanto não foi capturado, o maior terror das moçoilas paulistanas era se deparar na rua à noite, com um LOURO! O medo espalhou-se e chegou, acreditem, ao Rio. Lembro-me de tias que ficaram impedidas de ir aos “bailes” dos “anos dourados” por medo do Bandido da Luz Vermelha. Em plena Vila da Penha!
O Brasil é racista? Não. Embora se verifiquem casos explícitos, em pequena escala (doentes da alma existem em qualquer lugar).
O preconceito, este perdura enquanto suas origens existem (ou permanecem, por inércia, no imaginário). Tendem a se esvaziar, como o processo em curso no Brasil, à medida em que muda-se a realidade social. Mudam-se paradigmas e referências. Mudam-se preconceitos.
Encerro contando um caso em que o preconceito me salvou e outro em que a ausência dele me ferrou!
Caso 1 – Salvo pelo preconceito:Eu morava nas proximidades da Mangueira. Um dia ao voltar para casa, na passarela da estação de Mangueira avistei um trio “com toda a pinta de bandidos”. Dois eram mulatos e um branco. Meu “preconceito” me disse para não passar por ali. Obedeci. Peguei um ônibus até a Av Pres. Vargas e lá tomei outro de volta que me deixou do outro lado da estação. Perdi uns 40 min. No dia seguinte soube que várias pessoas haviam sido assaltadas pelo trio!
Caso 2 – Dancei! Agora eu morava na Ilha do Governador. Saindo de ônibus em direção ao centro, distraído não percebi a entrada de um trio (de novo um trio) na altura de Manguinhos. Quando mirei o trio no corredor do ônibus tive a certeza (pela “pinta” dos três, que também não eram pretos, embora também não pudessem ser chamados de brancos) de que iriam assaltar. Já não dava para eu sair fora. Se tivesse percebido na hora em que embarcaram eu tinha saltado no ato (por puro “preconceito!- ou seria “instinto”?).
Fui assaltado junto com todos os outros passageiros!
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

TENHO PRECONCEITOS SIM, E DAÍ? Parte I

Existe um preconceito muito grande com a palavra “preconceito”!

Etimologicamente significa “conceito pré-formulado” ou pré-estabelecido. E porque formulamos conceitos previamente? Por coerência, por encadeamento lógico de raciocínio, por comparações com padrões ou referências.

Preconceito é ruim? Não necessariamente. Muitas vezes é um mecanismo útil de auto-preservação!Vamos logo futucar a ferida. Vamos ao mais “famoso” dos preconceitos, o relacionado à cor de pele, muito confundido no Brasil com “racismo”. Pretos, mulatos e outras denominações para tons de pele mais escuros, durante muito tempo foram vistos como seres “perigosos” e/ou “incultos” e/ou “inferiores”, pelas camadas sociais onde impera o tom de pele mais claro (os “brancos”). Vem de uma realidade, em parte, e de um conceito equivocado (e cretino), por outra parte.(Antes de se escandalizarem, por favor, continuem lendo)A realidade, cruel, perversa, é que, de fato, após trezentos anos de uma ignóbil escravidão, e de uma “abolição” feita “de qualquer maneira”, sem prever as consequências que certamente viriam ( e vieram ), uma verdadeira legião de negros libertos (mas não emancipados) passou a constituir a camada mais baixa da sociedade, incluindo o lumpesinato e a marginalidade, nos centros urbanos, e a miséria quase absoluta, nas zonas rurais.

Nestas condições, grande parte destes desgraçados passaram a ser, de fato, “perigosos”. “Incultos”, a quase totalidade, por razões óbvias. “Inferiores” circunstancialmente, e não biologicamente como quis demonstrar por muito tempo a própria ciência “oficial”.

Desta forma, ao estereótipo do bandido, marginal, vagabundo, no Brasil, foi adicionado o tom escuro de pele. Eram só os pretos? Não, mas, sem dúvida, eram maioria.Surgia o preconceito: A maioria dos marginais é preta, portanto, um preto tem grande probabilidade de ser um marginal! Gente, isso, por mais cruel que seja, é “lógica”!Imaginem as seguintes situações, passadas na alvorada do século XX:SITUAÇÃO A) Uma criança, de família branca e em razoável posição social, chega em casa trazendo um “amiguinho” preto.

Reação 1 – A família se assusta pois, “quem sabe de onde vem” aquele menino? quem são seus pais? onde moram? o que fazem? “provavelmente” são pessoas que não pertencem ao nosso “nível”, ao nosso “mundo”. Quem sabe são até “perigosos”? Pelo-sim-pelo-não, não queremos nosso filho em sua companhia! – Isso é PRECONCEITO!

Reação 2 – A família se indigna. “Pretos não são companhia para nosso filho”. Eles são inferiores, “cheiram mal”, são perversos, vagabundos, perniciosos… – Isso é RACISMO!SITUAÇÃO B) … No próximo post!

__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

CONHECENDO O RIO – ILHA GRANDE

“Há males que vem para bem”. A frase é chavão e às vezes vem carregada de conotações cruéis, mas no caso da Ilha Grande ela se aplica. A existência de uma colônia penal (eufemismo para presídio) manteve por quase um século este verdadeiro paraíso tropical longe da especulação e da predação que “comeu solta”, sobretudo, nas últimas décadas.

Por muita sorte a desativação do presídio e a “abertura” da Ilha ao turismo ocorreu num momento em que a consciência preservacionista já atinge um nível considerável em nossa sociedade. Mas vamos às atrações da Ilha Grande. Obviamente, sendo uma ilha tropical, não faltam as belas praias, o sol, os passeios de barco etc etc. Tudo isso tem lá, mas com a enorme vantagem de que fica “pertinho” do Rio.

Você pode chegar lá de barca a partir de Mangaratiba (2 horas do Centro) ou de Angra (três horas). Apesar de mais perto eu não aconselho o embarque em Mangaratiba para quem não é muito chegado a travessias marítimas. Há um trecho, próximo à ponta da Marambaia, onde as ondulações costumam ser grandes e causar enjôo. Indo por Angra a travessia é toda feita ao abrigo do mar alto e, portanto, bem mais tranquila em termos de condições de mar. Dura cerca de uma hora e meia, por um ou outro.

O destino das barcas é o povoado principal da Ilha, chamado Vila Abrão (a maioria chama de Abrahão, mas na realidade o local é uma enseada, cujo sinônimo em português da época do descobrimento é “abra”). Neste povoado você encontra a maior concentração de pousadas da Ilha, bem como é de lá também que partem quase todos os passeios de escunas e saveiros para todos os pontos da Ilha. Dali também se originam diversas trilhas, dos graus de dificuldade os mais variados, para praias desertas, rios, cachoeiras etc.

Na Ilha não circulam veículos a motor (exceção para uma viatura da UERJ que atende a um Centro de Estudos da Universidade situado na praia de Dois Rios, a 12 Km do Abrão). Em Dois Rios ficava o presídio, cujos restos que sobraram da implosão ainda estão lá como atração turística. Esta “estradinha” de 12 Km é um dos passeios que os mais dispostos podem fazer, e, leva, em média, duas horas de uma praia a outra.

O Abrão fica do lado “de dentro”, ou seja, o lado voltado para o continente. Do outro lado da Ilha estão as praias de “mar aberto”, sendo que a mais procurada (também acessível por trilha) é a de Lopes Mendes. Sem acesso por trilha a partir do Abrão fica a localidade de Aventureiro, remanescente de uma aldeia caiçara, com poucos moradores e uma praia “de babar” de tão linda. O acesso ao Aventureiro é feito de barco e o número de pessoas por vez é limitado e controlado.

Bem, se você é do tipo “eco-turista” vai ficar doidinho sem saber por onde começar (muito menos quando acabar!). Se é do tipo “sombra e água de coco na beira da praia” também, pois ficar “de bobeira” nas praias e na vila também é uma delícia.Tanto Mangaratiba quanto Angra têm estacionamentos seguros onde você pode deixar o carro.

Agora, não deixe de RESERVAR vaga, via internet, em alguma pousada antes de ir, pois você tem que COMPROVAR estadia para ter acesso à Ilha. Digite “Ilha Grande” no google e escolha. Todas as pousadas oferecem passeios de barco e dão dicas para outros passeios.

Ah, e antes que eu me esqueça, consulte a meteorologia, pois a Ilha com chuva é frustrante!
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

TERRA: O GRANDE PARQUE DE DIVERSÕES!

Custei a acreditar quando vi. No Alasca, um grupo de “surfistas radicais” surfavam ondas geladas formadas pelo “desbarrancamento” da parte frontal de uma geleira que se derretia aceleradamente em consequência do aquecimento anormal do Ártico!Lembrei-me de outras situações em que grupos de homens e mulheres ditos “destemidos” desafiam situações-limite pelo planeta a fora:

- Surfistas de “ondas gigantes” em alto mar;
- Surfistas de pororocas;
- “Snowborders” de geleiras e encostas geladas “impossíveis” de serem esquiadas;
- “Basejumpers” (paraquedistas de pontos fixos) se lançando dos pontos mais remotos e perigosos, como cachoeiras gigantes, cavernas etc;
- Pilotos de rali atravessando as mais inóspitas regiões do globo;
- Participantes de “corridas de aventuras” enfrentando condições limite nos confins das selvas;
- Ultramaratonistas disputando corridas de centenas de quilômetros em regiões polares;

Chega?Tem muito mais.
Tem “aventura” para todos os gostos. Todas temperadas com muita ADRENALINA, que é a palavra mais constante no vocabulário desses modernos “aventureiros”.

Não há obstáculo nem limites para essas pessoas, e também não falta grana, pois nada disso é barato.Confesso que eu tenho uma certa implicância com essas coisas. Não vou entrar no terreno da pieguice dizendo, por exemplo, que “há tanta gente sofrendo e passando fome enquanto esses privilegiados rodam o mundo em busca de prazer pessoal…

“Não, não vou entrar nessa. Minha implicância tem outros contornos. Me incomoda o fato de estarmos perdendo, de certa forma, o “respeito” para com o planeta, seus fenômenos, sua energia telúrica. É algo assim meio “Gaia” mesmo! Essa necessidade de desmistificar, de transpor o intransponível, de realizar o irrealizável, sem um propósito que não envolva algum tipo de “ganho” humanístico, me soa como uma espécie de violentação do planeta e da natureza.

Além do mais, esses caras que fazem tais coisas que me desculpem, mas não venham me dizer que “curtem” a natureza, pois para fazer essas “maluquices” eles não podem se dar ao luxo de admirar, de contemplar p. nenhuma. Eles estão lá é para vencer, para arrostar, para enfrentar. Tudo em nome de seus enormes EGOS!
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Ivo Fontan

EM DEFESA DOS POLÍTICOS "DESSE PAÍS"

“Reciclando Textos”- 20/10/2006

É isso mesmo que você leu aí em cima. E sou eu mesmo, Ivo, e esse é um post autêntico, não é pirata!Estou escrevendo isso depois de ler as seções de cartas de leitores de dois dos jornais de maior circulação no país. Podem confirmar, a maioria esmagadora é de cidadãos indignados com a bandalheira reinante e “descendo o pau” nos políticos de todos os matizes e instâncias de governo.

Pera lá. Há que se fazer justiça. Atribuir todos os males do país a seus políticos é forte e injusto. Eles sozinhos não teriam poder, nem capacidade operacional e nem inteligência suficientes para promover a gigantesca pilhagem, o monstruoso desmantelamento de instituições e valores que testemunhamos à nossa volta. Eles são, em geral, escória humana e social, é verdade (ok, vamos admitir que existam uns quatro ou cinco que sejam cidadãos honestos e idôneos. Tá legal, seis, incluindo esse aí que cê tá pensando), mas sem ajuda de uma horda de não-políticos eles não teriam tanto poder de fogo. Quando a gente fala em desmandos, roubalheiras, cafajestadas etc, perpetradas pelos “donos do poder” a gente quase sempre tem em mente os que lá chegam através do VOTO: Chefes de executivo e parlamentares costumam ser nossos alvos.

Agora me diga, que prefeito, governador ou presidente conseguiria levar adiante seus intentos criminosos se tivesse à sua volta uma assessoria, secretariado e/ou ministério onde predominassem cidadãos íntegros? Que parlamentar conseguiria roubar, desviar, traficar etc se não tivesse cúmplices dentro das instituições e das empresas? E o mais “discreto” dos poderes, o judiciário? ali ninguém é eleito!

Não podemos ignorar o fato de que para cada governador, por exemplo, ou governadora (o uso do feminino aqui é apenas para não me acusarem de discriminação sexual, não há outra conotação!) canalhas existe uma estrutura, na forma de pirâmide – da qual o governante (ora) é apenas o vértice – montada para viabilizar a pilhagem. É só ler os jornais e ouvir os noticiários, gente. E essa pirâmide é eclética. Dela fazem parte desde o chefetezinho da bandidagem local até o enfastelado mega-empresário, passando, se duvidar, pelo teu vizinho aí do lado!

O “político”, coitado, que leva a culpa de tudo, às vezes não é sequer o cérebro da “organização”, é apenas o que tem o maior ego e o menor escrúpulo para cumprir toda a liturgia necessária ao processo eleitoral (fotografar, discursar, simular, mentir, bajular, enfim, aquilo tudo que é necessário para conseguir votos). E ainda tem um detalhe importante, por ser figura-de-proa, o político é o mais exposto, ou seja, é sobre ele que desaba o mundo quando sua “organização” é desmascarada. O resto da pirâmide escafede-se com uma velocidade impressionante, mimetiza-se e vai se refazer logo adiante sob outra figura-de-proa ou se dilui migrando para uma das outras inúmeras pirâmides existentes. Simples assim.

Pense nisso e, de agora em diante, tenha um pouco mais de complacência com os políticos. Eles, em grande maioria, são cavaleiros de triste figura, meros doentes egocêntricos, capazes, inclusive, de fazer coisas BOAS e CERTAS eventualmente, se isso lhes render homenagens e votos!Inclusive, veja que curioso, os políticos a gente pode defenestrar ou banir. É só negar-lhes o voto. Já o resto da pirâmide…

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Ivo Fontan

SEMPRE FOI ASSIM!

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Falei aqui, recentemente, sobre a praga da burocracia. Outra praga, prima-irmã desta, é a PASSIVIDADE DIANTE DAS COISAS, ou o que eu chamo de “Sempre foi Assim”. Esta praga permeia todos os setores da atividade humana, desde dentro de nossas casas até a vida profissional. Tanto quanto na burocracia, a gente também não costuma se dar conta de que está, de alguma forma, preso nesta armadilha.

Raríssimas (e especialíssimas) são as pessoas que, ao assumir um emprego, um cargo ou uma função nova, questionam e procuram saber a origem e o porque dos procedimentos inerentes. Alguns até procuram melhorar, otimizar, mas pouquíssimos mesmo questionam se aquilo é “realmente necessário” e por quê! É assim por que é assim! Sempre foi assim! Tem que ser assim! Isso é tão parecido com burocracia que às vezes se confunde com ela.

Querem um exemplo (não sei prá que eu pergunto, eu vou dar mesmo!)? Quando eu assumi a responsabilidade sobre o setor de estágios da escola onde trabalho (uma escola técnica federal, hoje um cefet), encontrei uma situação com a qual não concordava. O estudante, para fazer jus ao diploma de técnico deveria realizar um “estágio” de “x” horas e apresentar à escola um relatório. A aceitação ou não deste relatório (segundo critérios pré-estabelecidos) era a única condição para a diplomação.

Minha discordância vinha do fato de que a confecção do relatório (óbvia e compreensivelmente repetitivo para estágios nos mesmos locais) acrescentava muito pouco à instituição. Na minha visão, o “relato” das atividades profissionais deveria servir como fator de retro-alimentação curricular e programática. Por isso, com a autorização da direção criei um procedimento chamado “Seminário de Avaliação de Estágio”. Algo semelhante (guardadas as devidas proporções) a uma “defesa de tese” onde o estudante discorria sobre as atividades realizadas no estágio perante um grupo (professores, orientadores pedagógicos, colegas etc.).

O objetivo principal deste procedimento não era “aprovar” ou “reprovar”, embora isso até fosse possível, mas sim uma forma simples, direta e pragmática de criar um fluxo de informações “fresquinhas” sobre as novidades e tendências do “mercado de trabalho”. Para que a participação no “Seminário” não se tornasse um estorvo para aqueles estudantes que já estavam engajados no mercado (por exemplo: um aluno que tenha sido contratado pela empresa que lhe deu estágio e, para isso, necessite, imediatamente, do diploma. Não podendo “aguardar” até o próximo seminário), eu, pura e simplesmente o DISPENSAVA desta BUROCRACIA e, considerando que o mercado o absorveu, entendia como “cumprida” a missão da escola e o encaminhava diretamente à DIPLOMAÇÃO. Simples assim!

Pois bem, minha “criação” agradou tanto que virou procedimento padrão em praticamente todas as Escolas Técnicas do País! Se me orgulho disso, claro! Mas vejam essa. Recentemente (já tendo me desligado da função há décadas) fui procurado por um formando que, desesperado, precisava do diploma para uma contratação que envolvia uma viagem imediata para outro estado da federação. No Setor de Estágios informaram-lhe que deveria participar do tal Seminário dali a SEIS meses! Mesmo afastado há tempos da função, procurei a colega que agora ocupava a chefia e relatei-lhe o fato. Como resposta ele me informou que nada podia ser feito pois o procedimento era esse mesmo, em TODA A REDE. SEMPRE FOI ASSIM.

Pacientemente eu lhe expliquei a origem dessa “história”, revelando que havia sido eu o criador e que, portanto, não havia nenhum impedimento legal para a “dispensa” do rapaz para que ele seguisse seu caminho profissional (afinal não é esse o objetivo maior? não é para isso que estamos aqui?). Ela olhou-me entre desconfiada e perplexa e não me deu resposta. Ficou de pensar…Tempos depois (seis meses), para minha tristeza, encontrei o aluno. Ele estava lá para “cumprir” o Seminário. Perdera o emprego!
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Ivo Fontan

BUROCRACIA, UMA PRAGA INVISÍVEL

Talvez por estarmos acustumados à ela ou ainda pelo fato de que outros problemas são tão mais evidentes (como a violência, a corrupção etc), o fato é que raramente nos damos conta de que a BUROCRACIA (excessiva, burra, e, muitas vezes mal intencionada) figura entre os grandes problemas do Brasil.
Um exemplo:
Tendo sido eleito presidente da Associação de Moradores do meu bairro, encaminhei-me ao Banco do Brasil a fim de transferir a titularidade da conta da Associação, do antigo presidente para mim. Dentre uma série de exigências totalmente dispensáveis uma se destacou, a exigência do “Edital de Convocação” da Assembléia na qual fui eleito, em três versões ORIGINAIS!!! Vejam bem, eu disse três versões de um mesmo documento, sendo as três ORIGINAIS, ou seja, não servia um original e duas cópias, mesmo AUTENTICADAS. Não precisa dizer que de nada adiantou argumentar com o “funcionariozinho” sobre o absurdo da exigência.
Era assim e pronto!
Reportei-me a umas décadas, quando foi criado (não me lembro bem em que governo, mas era da época militar) o “Ministério da Desburocratização”. Nesta época eu exercia funções administrativas na escola (federal) onde trabalho e, uma de minhas funções era organizar o concurso vestibular. Sempre fui “cismado” com a burrice da burocracia, que exigia a apresentação de documentos dispensáveis, mas não tinha amparo legal, por isso era sempre voto vencido.
Um dia recebemos uma “cartilha” elaborada pelo titular da desburocratização, um brasileiro genial chamado Hélio Beltrão. Dentre outras coisas, vejam que maravilha, vinha na cartilha como normas a serem adotadas no serviço público:
- Dispensa-se a “autenticação” de documentos em cartório. Fica o funcionário público autorizado a conferir e autenticar qualquer documento (claro que responsabilizando-se por isso);
- Dispensam-se atestados de natureza declaratória (bons antecedentes, por exemplo), substituindo-se por Declarações firmadas pelo interessado. Declarações falsas seriam sujeitas às penalidades já previstas em legislação;
- Dispensa-se a apresentação de documentos cuja posse seja condição obtenção de outros já apresentados. Por exemplo, se você apresenta a CNH e nela consta o número de seu RG (ou CPF ou Tít. de Eleitor) você está dispensado da apresentação destes.
Isso e muito mais estava lá na “cartilha do Beltrão”.
Foi lá também que aprendi que Atestado de Residência é tão somente a comprovação de que o endereço apresentado realmente EXISTE (para isso apresentam-se contas de luz, gás, etc). Não é obrigatório que o tal documento apresente o nome do interessado. Caso ele não resida no endereço apresentado estará sujeito a responder por crime de Falsidade Ideológica.
Ou seja, Beltrão colocava “nas costas” do cidadão a RESPONSABILIDADE pelos seus (dos cidadãos, claro) atos, além de retirar uma fatia enorme de poder (e lucro) dessas excrecências chamadas CARTÓRIOS e, sobretudo, simplificar procedimentos.
Claro que Beltrão e seu benfazejo Ministério não duraram muito. Eram muito sérios para o Brasil! Como “criar-dificuldades-para-vender-facilidades” com essas normas? E a grana fácil dos tais de cartórios? e a burrice generalizada de funcionários? e o “apego” do próprio público à burocracia?
Pobre Beltrão, não só não conseguiu acabar como viu a burocracia recrudescer com mais força ainda depois de seu incrível trabalho. Sabem do mais impressionante? Embora o Ministério tenha sido extinto todas as normas criadas NÃO FORAM REVOGADAS, o que significa que ESTÃO EM VIGOR! Agora, DUVIDO que você consiga convencer alguém disso! Pobre Brasil!
P.S. Na inscrição para o concurso vestibular do ano da “cartilha” eu fui o ÚNICO funcionário da minha escola que AUTENTICAVA documentos dos candidatos. TODOS os colegas exigiam a autenticação de cartório!
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

ASSASSINATO COM HORA MARCADA

“Reciclando Textos”- 01/12/2006

Um cara de “boa família” – classe média – praticante de vôo livre, bon vivant, resolve dar “uma esticada” em Bali para curtir. Sabedor de que a “galera” que frequenta aquele point é chegada numa cafungada, resolve levantar um troco e descola uns quilos da “branquinha” prá distribuir por lá. Dá um azar desgraçado e é pego no aeroporto. Vai em cana, como tinha mesmo que ir. Só que lá, a cana é dura. Traficante lá é fuzilado, e, afinal de contas, o cara é traficante!Vai a “julgamento” e é condenado. Vai MORRER!

Por que é que eu coloquei o julgamento aí em cima entre aspas? Pelo seguinte, eu entendo um JULGAMENTO como uma coisa ÚNICA. Explico: Quando se julga se julga ALGUÉM, e não um ATO ou uma ATITUDE.

No caso do cara em questão (eu estou falando do Archer, que está no CORREDOR DA MORTE lá na Indonésia) o tal “julgamento” comprovou que era a primeira vez que ele fazia aquilo e mais, fazia de forma autônoma, ou seja, não era ligado a nenhuma quadrilha de tráfico internacional. Isso ficou comprovado no “julgamento”.

Aí eu pergunto: Esse cara fez uma coisa assim tão hedionda, tão monstruosa, que mereça ser morto, ASSASSINADO por um bando de soldados?Antes que me questionem e me acusem de estar defendendo o tráfico e uso de drogas, esclareço: Embora seja TOTALMENTE FAVORÁVEL À LIBERAÇÃO, mesmo SEM SER USUÁRIO (mas isso é outra discussão), concordo com todos os argumentos dos que combatem o tráfico, até porque, com a liberação não haveria mais tráfico! (simples, não?)

Haveria sim comércio, com circulação de impostos e geração de empregos, igualzinho acontece com o tabaco e o álcool (dos quais eu sou usuário!).Mas voltando ao assunto, O cara está certo? merece perdão? NÃO.Errou, transgrediu, quis se dar bem, arriscou e perdeu!A questão é: O que esse cara merece? Na minha opinião merece se f…, para deixar de ser “esperto”.Mas o que é se f… neste caso? Aí é que está, será que uma “etapa” de xilindró, longe da boa vida que ele estava acostumado, talvez mesclada com uns trabalhos comunitários e, até mesmo, uma boa porrada pecuniária não seriam suficientes? O cara tem que MORRER?

Atentem para um detalhe, junto com ele, lá no tal corredor da morte, estão alguns dos terroristas que explodiram uma porrada de inocentes lá, na mesma Bali! E aí? Os crimes são equivalentes? Então por que a pena é?

Se o “tráfico de drogas” é punido com a MORTE (ASSASSINATO) então prá que julgamento? Se não são considerados agravantes e atenuantes, se a HISTÓRIA pessoal do cara não é considerada prá que o “circo” do julgamento? Pegou em flagrante (como foi o caso) dá logo um tiro nos cornos e pronto!(pelo menos na China o troço é menos hipócrita, lá o “julgamento” é sumaríssimo e o infeliz morre logo, não fica anos em agonia, enlouquecendo em um “corredor da morte”)

Chocou? Pois é exatamente isso que o governo da Indonésia vai fazer com um brasileiro que, até prova em contrário, não é nenhum monstro, nenhum assassino. Apenas cometeu (o “julgamento” concluiu, não sou eu que estou inventando) um único erro na vida. Grave? Sim, mas pelo qual mereça ser ASSASSINADO?

Não conheço o cara nem ninguém de sua família. Não tenho procuração de ninguém para defendê-lo, mas tenho certeza de uma coisa: Por todo o susto e HORROR que esse cara já passou, duvido que ele não tenha aprendido a lição. Duvido que, caso ele saísse dessa, viesse a se meter em qualquer outra situação semelhante. Duvido que ele seja UMA AMEAÇA PARA A SOCIEDADE, seja daqui ou daquela “sociedade exemplar” que é a Indonésia. No entanto aqueles “vestais”, aqueles “arautos da virtude mundial” vão ASSASSINÁ-LO!

Vem cá, eu estou enganado ou foram esta mesmas “vestais” que MASSACRARAM, não faz muito tempo, quase a metade de uma nação (crianças, velhos e gestantes incluídos)? Os “perigosos” TIMORENSES?

Fala Sério !!!

__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

O OBSCURANTISMO MEDIEVAL VOLTOU!

Isto é sério, muito sério.

O jornal “Folha de São Paulo” publicou uma série de reportagens assinadas pela jornalista Elvira Lobato, que investigou as atividades da “organização” conhecida por IURD, e de seu criador e dirigente maior, Edir Macedo. Segundo consta, a apuração rigorosa de Elvira revelou os “bastidores” da organização, sua movimentação financeira, patrimônio, ramos de atividade etc, que a qualificam como um verdadeiro “império”, no sentido empresarial da palavra.

Nenhuma grande novidade. A não ser o fato de que, numa atitude verdadeiramente OBSCURANTISTA e, obviamente ORQUESTRADA, uma “enxurrada” de AÇÕES contra a jornalista começou a surgir, ajuizadas (pretensamente) por “fiéis” que se dizem prejudicados pelas revelações da jornalista.

Atentem para os seguintes e importantíssimos detalhes:

1 – As ações partem dos mais variados pontos (sempre cidades pequenas e de interior), de juizados de pequenas causas;

2 – Ajuizadas quase simultaneamente, implicam na “intimação”, também simultânea, da jornalista, em vários locais NO MESMO DIA;

3 – Confrontadas as ações revelam que as argumentações dos “fiéis” são praticamente as mesmas (com coincidência de frases inteiras!) nas mais variadas localidades.

Gente, este tipo de INTIMIDAÇÃO é INÉDITO em nosso País.
Não é brincadeirinha não.

Eu não conheço a jornalista, não li as matérias, não aposto no escuro que a apuração dela foi perfeita. No entanto, se ela errou, se há contestação quanto ao que foi divulgado, o caminho da justiça deveria ter sido procurado pela ORGANIZAÇÃO ou por qualquer de seus MEMBROS citados. A utilização dos “fiéis”, de maneira maquiavélica e pretensamente “inteligente” (não o é, tanto que ficou evidente a armação), não passa de uma manobra obscurantista mas com um potencial INTIMIDATÓRIO brutal. É crucial que todos nós acompanhemos de perto o desenrolar dessa história e, com nossa vigília, criemos algum tipo de proteção em torno da jornalista. Se ela tem o que responder na justiça que o faça diante dos membros da IURD. De cara limpa e olho-no-olho!
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

SER OU NÃO SER REVOLUCIONÁRIO…

“Reciclando Textos”- 01/10/2006

Adolesci (se é que existe o verbo. Se não eu acabei de inventar) e tornei-me homem no auge dos “anos de chumbo” e na “capital cultural” do país. Como se não bastasse fiz Escola Técnica (ETQ) em plena efervescência do governo Medici. Testemunhei inúmeros colegas aderindo aos também inúmeros movimentos da chamada “luta” contra a ditadura. De minha parte, nenhum chamamento (e existiram muitos) foi suficientemente convincente para me fazer acreditar em propostas ou ideologias capazes de me colocar nas mãos armas ou panfletos.

Particularmente uma coisa sempre me chamou atenção: Quanto mais radical era o discurso contra o vigente “regime militar” maior era a “militarização” do grupo! Hierarquização exasperante, doutrinação, obediência cega, missões… Eu sempre tive a impressão de que se o lado da “luta” vencesse não seria muito diferente de uma troca de seis por meia dúzia!

Enfim, ideologias e doutrinações à parte, uma coisa sempre foi muito clara para mim: Quem entrava para o “movimento” o fazia por crença, fé, convicção inabalável. Tive, repito, muitos amigos que entraram e, tenho certeza, todos tinham absoluta consciência dos riscos que assumiam e corriam! Ninguém acreditava que pudesse ser “acariciado” caso fosse pego! Era papo de “macho” (independente de sexo)! Tô dizendo isso pelo seguinte: Não conheci ninguém que tenha entrado na “luta” com a ilusão de que estava empreendendo uma “cruzada”. Todos tinham consciência de que tinha sangue pra rolar, dos dois lados, e o seu próprio era o mais provável. E o agravante: Por maior que fosse a ideologia, o lado da “legalidade”, por mais que isso revoltasse, era o do “regime”. Fora disso era a “subversão” e a “clandestinidade”. Méritos à parte.

Por isso é que sou inteiramente contrário às indenizações, subvenções e reparações, em particular as de ordem financeira, aos “sobreviventes” da “luta”.
Vejam bem, é bem diferente dos casos de INJUSTIÇA, isto é, pessoas que INJUSTIFICADAMENTE foram perseguidas, perderam seus empregos, sua liberdade etc. A esses toda a reparação possível, inclusive financeira!Aos engajados, nosso respeito pela coragem, pela capacidade de crer e lutar por suas crenças. Grana? Vão cobrar dos líderes de seus movimentos, e não do governo (meu, seu, nosso dinheiro) pois EU não passei procuração para ninguém “lutar” por mim ou pelo que supostamente eu acreditava ou deixava de acreditar!
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan