Renata Matteoni tem 34 anos e era advogada. Era porque depois que se tornou mãe abraçou a causa e parou de trabalhar pra cuidar de sua filha, que hoje está com 3 anos e meio, e não pretende voltar a atuar na área. Escreve em seu blog Pipocando (http://rematteoni.caixadepandora.com.br) sobre o que dá na telha, mas a maternidade e a preocupação com o futuro da humanidade estão, como em sua vida, entre os temas mais recorrentes. E foi capaz de mudar de endereço para morar perto da escola que considerou a melhor opção que poderia oferecer para a educação de sua filha!
1. Como foi sua busca? Visitou muitas escolas?
Foi rápida. Visitei quatro escolas. Três num mesmo dia, e uma – a que escolhi – em outro dia. E a que escolhi já conhecia um pouco. Acho que, ainda que inconscientemente, a escola já estava escolhida, e a visita às outras foi mesmo só pra ter certeza de que tinha que ser aquela.
2. Então você já tinha algo em mente quando começou a procurar?
Tinha uma idéia do que queria numa escola pra minha filha, e a escola que já conhecia e por que no final das contas acabei optando era uma espécie de modelo. Eu já tinha uma admiração pela forma como eles trabalham, mas nunca tinha feito uma visita mesmo, só tinha assistido a palestras e conhecia mães de crianças de lá. Então, depois de visitar as outras escolas marquei a visita com a diretora e foi só a confirmação – pra meu marido também – de que era ali mesmo que a Pipoca tinha que começar sua vida de “estudante”.
3. Quais os critérios que pautaram a escolha?
Posso tentar resumi-los com o seguinte: quero uma escola que respeite o tempo de ser criança da minha filha e que pense no ser humano de forma integral na hora de educar. E que procure educar mentes mais livres. A gente acha que vive com muita liberdade hoje, mas estamos ligeiramente enganados. Porque são, na verdade, tão poucas as escolhas que realmente fazemos de coração. Quero uma educação diferente da que eu recebi, quero minimizar os efeitos da intelectualização precoce a que as crianças estão sujeitas em geral e a Pipoca, em especial, por ter o exemplo em casa de uma mãe que escreve e lê muito. Quero que ela tenha professores afetuosos e preocupados com seu bem estar emocional acima de tudo. Quero que os professores a conheçam e a tratem de acordo, e que não tratem os alunos como se todos fossem iguais. Não quero que minha filha cresça como gado. Quero que ela tenha prazer em aprender e não seja obrigada a decorar as coisas. Isso pode não parecer, mas foi um resumo porque quero muito mais! O que vou falar é meio clichê, mas os pais hoje escolhem o jardim da infância pensando no vestibular, e pensando de uma forma equivocada a meu ver. O respeito pela infância e pela individualidade só pode gerar adultos mais felizes, mais capazes de fazer escolhas conscientes e de encarar os desafios da vida. E isso tudo vai repercurcutir na vida de estudante e profissional deles no futuro…
4. E o que pesou contra as outras escolas visitadas?
Numa delas tudo! rs Crianças ensandencidas correndo por um pátio de grama sintética e cimento, ou em salas de aula escuras, algumas assistindo TV! Crianças tristes, eu achei. As outras não me causaram nenhuma impressão terrível, uma delas inclusive me pareceu até asséptica de tão perfeita e limpa. Mas acho que faltava alma em ambas, não transmitiam a impressão de que havia uma comunidade ali, inclusive numa delas a dona me disse que a participação dos pais era ínfima, até em reunião semestral o quorum era baixo. Como minha filha pode crescer com crianças cujos pais pensam de forma tão diferente da minha quando se trata de filho? Isso nada tem a ver com diversidade (muito pelo contrário, acho diversidade muito importante nas escolas e acredito lá não haveria), mas afinidade de pensamento, de filosofia de vida, especialmente quanto à criação e educação dos filhos…isso considero importante.
5. E a escola escolhida correspondeu às expectativas?
Posso dizer que até o momento sim! inclusive na adaptação eu fiquei com vontade de ser aluninha de lá! Tarde demais, infelizmente.
As crianças são felizes lá, as professoras afetuosas. Nem tudo é perfeito, já esperava encontrar algumas questões, mas me surpreendi com a a rotina da escola, é tudo bem organizado e a rotina muito respeitada, as coisas andam e funcionam muito bem para as crianças. E isso é o mais importante pra mim.
Porém…já observei alguns pontos fracos, vou comentá-los. Aprendi já há algum tempo que objetividade e praticidade não são características facilmente encontráveis em pessoas e instituições alternativas. Não combina, não funciona. E é meio por aí. Já percebi algumas dificuldades na administração financeira, os funcionários contratados são pouquíssmos, pois os próprios professores são responsáveis por determinados asuntos e pais voluntariamente ocupam cargos nas áreas administrativa e financeira, por exemplo. Tenho a impressão de que falta alguem que assuma o papel de administrador, com pulso firme, e estabeleça uma hierarquia na administração da escola. Sabe aquele lugar onde todo mundo trabalha e dá opinião e ninguem consegue decidir nada? Pois é, essa é a sensação que tive. Numa palestra que assisti ouvi sobre a importância de se encontrar em equilíbrio entre autoritarismo (vertical) e a participação de todos (horizontal), são dois extremos. O segredo deve ser mesmo o equilíbrio, o difícil é encontrá-lo.
Tem também aquele perigo do rigor de uma filosofia, do xiitismo. O grande problema é que, quando se acredita muito em algo, quando se idealiza algum pensamento ou pensador, há o risco de perder a capacidade de questionar e no caso a educação livre que se almeja pode virar mais uma prisão, e uma tortura para as crianças. Não estou sentindo isso lá, felizmente. A professora da Pipoca é um doce e muito equilibrada, a escola também não me pareceu radical.
Uma coisa interessante que observei, e que é um ponto fraco e forte ao mesmo tempo: os eventos não primam pela organização, rola muita improvisação, mas são sempre repletos de vida: a participação da comunidade é realmente um grande diferencial, e torna tudo muito mais emocionante. Aqui vale a expressão “feito com amor”.
6. Resumindo, o que você mais gostou na escola?
O mais importante mesmo, como comentei acima, é que na rotina das crianças tudo funciona muito bem. Não tem esse lance de anotar na agenda quantas vezes fez xixi e cocô, por exemplo, parece que a atenção é toda concentrada na a criança de uma outra forma, ela é encarada como um ser único, sua personalidade e seu estado emocional. E achei também bacana a preocupação que percebi com as mães e as familias também. O amor com que as professoras trabalham, o empenho e a dedicação também são dignos de nota. O espaço físico ao ar livre não é ideal, mas tem terra, mangueira, árvores, flores, uma horta vai ser plantada pelas crianças num novo espaço que foi criado, há brinquedos maravilhosos de madeira, e coisas como pernas de pau e corda de pular. Os espaço interno é maravilhoso. As salinhas são muito acolhedoras, parecem casinhas. As professoras falam baixo e cantam muito para as crianças. Elas aprendem a contar colocando a mesa, por exemplo. Tem jeito melhor de aprender?
7. Como funciona a adaptação lá?
Funciona de forma muito livre, mas procura-se um bom senso entre professor e pais. As mães podem ficar quanto tempo for preciso na adaptação, mas se não adaptar a diretora manda a criança voltar pra casa e voltar depois. Um parênteses: percebi que está havendo uma flexibilização em certas posturas que sei que a escola adotava até pouco tempo, uma abertura pra atender a necessidade da comunidade e da própria escola, que precisa crescer pra sobreviver. Nesse ano foi implementado o período integral, das 8 até as 16 horas, pra crianças acima de 3 anos. A escola passou também a aceitar crianças que ainda vão completar 2 anos esse ano, no maternal, mas essas pequenas só podem ficar um período, manhã ou tarde. Crianças como a Pipoca, com 3, deixaram de começar no maternal e passaram a ser jardim, de forma que no jardim há crianças de 3 a 5, 6 anos. No início até estranhei um pouco, mas agora estou achando interessante as crianças vivenciarem a escola dessa forma, acho até positivo para a adaptação dos menores, pois os maiores são de certa forma um exemplo. E acompanhar a própria vivência da professora, de encarar os desafios advindos de administrar uma turma de idades tão diferentes. E na escola os desafios e as ações adotadas pela professora são compartilhadas e discutidas com os pais – aqueles que comparecem às reuniões, claro.
Mas, voltando à adaptação, fiquei poucos dias lá. Por menos de semana fiquei durante toda a manhã, a Pipoca falando comigo só quando me via, em nenhum momento perguntou por mim ou pediu pra me ver. Num belo dia precisei ir ao dentista e conversei com a Pipoca, ela concordou, eu fui e voltei. Depois teve Carnaval e recesso, e ela faltou mais alguns dias porque adoeceu, então no primeiro dia em que ela retornou também fiquei lá um pouco. Depois passei alguns dias chegando um pouco antes de horário da aula acabar e pronto. Mas tem mães do maternal que estão lá até hoje, mais de um mês.
8. Como é a relação custo x benefício?
Em comparação com o que vi e que já ouvi falar, é excelente. A mensalidade é a menor entre as escolas que visitei. Na mensalidade está incluída uma taxa de material e não temos que levar nada extra além das frutas da semana – cada semana um aluninho da turma é reponsável por levar cinco tipos de frutas diferentes para a turma.
9. Você pretende atuar na comunidade?
Estamos conhecendo a escola, a comunidade, como as coisas funcionam. Já participamos de reunião de pais novos, reunião da turma, reunião individual com a professora, assisti duas palestras, bazar e devo começar a participar de um grupo de estudos, que será aberto para pais e amigos. Não cheguei a ir em nenhum mutirão – houveram dois, um para construção de um brinquedo e outro para jardinagem depois de uma obra que aconteceu. Ou seja, ainda não coloquei a mão na massa…rs
10. Você gostaria de deixar uma mensagem para os pais?
Em primeiro lugar acho que não existe escola ideal, cada família deve procurar uma que se adeque melhor a sua filosofia e estilo de vida.
Mas vejo e ouço hoje tantas insanidades quando se fala de jardim da infância que me assusto. Do tipo: “a escola bilingüe X tem a Cultura Inglesa, a Y o Britania, e a Cultura é muito melhor, de jeito nenhum quero que minha filha (de QUATRO anos) tenha um ensino pior de inglês, afinal inglês hoje não é mais diferencial, é essencial”. Ouvi isso ontem à noite, de uma mãe.
Eu, Renata – isso é uma opinião muito minha -, não vejo necessidade de uma criança tão pequena aprender inglês, não vejo o menor problema em ter o inglês introduzido no currículo depois da alfabetização. É fato que criança pequena aprende outros idiomas com mais facilidade que um adulto, mas isso é mais forte quando ela vive em outro país e em outra cultura. Não estou desmerecendo o aprendizado que a criança vai adquirir ouvindo e falando inglês durante a tarde inteira todos os dias da semana, mas não acredito que a que começa a aprender depois vá ficar prá trás. No final das contas, acaba servindo pra pai e mãe exibirem o filho pra amigos e familiares. O diferencial não é inglês ou outros idiomas, mas a educação da criança para o pensamento livre e para que ela seja capaz de fazer escolhas e como você mesma, Ana, falou, enfrentar os muitos desafios que o futuro trará, que não fazemos idéia de quais serão. Esses, pra mim, serão os homens e mulheres bem-sucedidos.
Sobre essa coisa da escola bilingüe, ainda, uma amiga me contou outro dia que anos atrás tirou o filho de uma escola super conhecida no Rio porque a escola estava implementando o ensino bilingüe e num belo dia o menino de 5 anos chegou em casa dizendo pra mãe que queria muuuuito aprender inglês. A escola usando a criança pra vender seu “produto”. Tem coisa mais covarde?
Mas já me extendi muito. Resumo da ópera: o que considero mutio importante e quero colocar é: pais, não escolham a escola de seu filho pensando no vestibular ou no futuro profissional que vocês idealizam para ele. Ou que seus amigos, a TV e a publicidade levam você a idealizar. Lembrem-se de respeitar a infância e não se deixar pressionar pelo filho dos amigos que está na escola trilingüe onde os filhos dos pais mais “poderosos” estudam. Seu filho merece mais que isso, e a humanidade e o planeta no futuro agradecerão.




























futurodopresent







Quem comenta