Meninas versus Meninos e vice versa

Desde que me entendo por gente, escuto sobre as dificuldades de relacionamento entre homens e mulheres. Hoje como mãe, observo o quanto alimentamos isso na cabeça das crianças. Meninas e meninos recebem criações diferentes demais. Claro que existem diferenças entre meninos e meninas, físicas e hormonais, inclusive. Mas precisamos acentuar isso o tempo todo? Precisamos criar um abismo entre meninos e meninas que posteriormente será um abismo entre homens e mulheres na vida adulta?

 

Outro dia, fui comprar um livro para dar de presente a um amiguinho da escola dos meus filhos e fiquei assustada quando percebi, que na faixa etária deles (a partir dos 8 anos) os livros começam a ser sexistas! Tem livros para meninos e livros para meninas! Fiquei boba de ver como as meninas são induzidas a um comportamento robotizado e escravizante. Monocromático e com glitter, o velho gel com purpurina. As meninas são, quase sempre, magrelas e de cabelos lisos ou com leves cachos devidamente disciplinados. E como não poderia deixar de ser, o lado cruel: a filha de uma amiga, por exemplo, sofre agressões contínuas das amiguinhas por conta de seu cabelo crespo. Fora isso, que já é algo reprovável e preocupante, temos livros ditando uma regra de comportamento feminino desde a infância. E a minha dúvida: incentiva também a segregar os meninos e estimula a competitividade entre as meninas?

 

E os livros dos meninos? Mais interessante que o mundo rosa das meninas pois estimula a aventura. Contudo, nem todos são assim já que muitos títulos e capas de livros aparentemente direcionados aos meninos, também estimulam a agressividade disfarçada de rebeldia. E a pergunta: ao mesmo tempo, igualmente segrega as meninas? Os meninos, aventureiros e as meninas, fashionistas descoladas. Engraçado que isso eu já percebia nos meus bebês: as vida dos meninos é mais interessante: para começar, tem todas as cores, exceto o rosa (tinha que ter um sexismo…). A das meninas, pelo contrário, quase não tem nenhuma cor, exceto o rosa, em profusão de tons, do pastel aos lilás.

 

O que me chama atenção é que, literatura não tem sexo. Na vida adulta, temos até alguns livros direcionados a determinados sexos mas são minoria, visto que a maioria das histórias são interessantes sem distinção de gênero. Mas na infância isso não é influenciador demais? Adultos já conseguem discernir e escolher como querem se comportar mas e as crianças? Essa geração vai crescer aprendendo a gostar de ler ou vai aprender a gostar de ler apenas livros direcionados especificamente para o sexo feminino ou masculino? E o que esses livros propagam, é uma visão construtiva dos mundos feminino e masculino?

 

Pensei também nas princesas. Quantas princesas, quantos filmes de princesas, quantos produtos de princesas. E os meninos? Nenhum príncipe. Não há incentivo para os principes, não há brinquedos… o que é bom! Mas não é muita princesa? Não é princesismo demais? O que é uma princesa senão aquela beleza perfeita a espera do príncipe encantado e perfeito? Coisa que sabemos, que não existe. Isso não vai gerar um conflito no futuro? Só saberemos mais tarde, se é que vamos conseguir associar os efeitos às causas.

 

Sei da dificuldade que existe na relação homem/mulher desde sempre. Mas atualmente vivemos uma era que a solidão impera. Somos seres humanos cada dia mais individualistas e solitários. Nossa sociedade apresenta uma enorme dificuldade de entendimento entre homens e mulheres. Além da competição, vemos muita carência de afeto. Como eu disse, isso não é de hoje, mas todos estes fatos não contribuem para aumentar ainda mais este abismo entre homens e mulheres? Quantas mulheres e homens legais a gente conhece que estão sozinhos, e sempre reclamam da dificuldade de encontrar alguém legal para viver a vida? O que falta para estas pessoas se encontrarem? Será que é uma dificuldade que carregamos desde a infância? E hoje e dia, isso é mais acentuado ainda?

[imagem: getty images /royalty free]

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