Daily Archives: 30 de novembro de 2007

EU VI UM TIÊ!

Sou um crítico severo do “fundamentalismo” ecológico. Chamo assim a qualquer atitude “pretensamente” preservacionista porém mal ou erroneamente embasada.

Para mim, coisas assim mais atrapalham do que ajudam na formação de uma “consciência coletiva” voltada para a criação de hábitos ecologicamente corretos. Moro em um “pequeno paraíso”. Um bairro cercado por verde (uma franja de mata atlântica). Amante de pequenos trabalhos caseiros, frequentemente estou no quintal – que confronta com esta tal franja – fazendo “alguma coisa”.

Em consequência, avisto regularmente animais silvestres. Dos mais arredios, como teiús (lagartos), quatis, caxinguelês, aos mais exibidos, como pássaros os mais variados, sem falar naqueles que também fazem parte do esquema mas que a maioria prefere não ver, como cobras, insetos etc. Convivo com todos eles numa boa. Até mesmo com os tais dos “miquinhos” que a maioria das pessoas acha “umas gracinhas”. Pois bem, esses primatazinhos tão bonitinhos não fazem parte da fauna original de nossa região. Trazidos para cá ao longo de décadas, principalmente através de viajantes que os compravam em beiras-de-estrada no nordeste (seu local de origem), esses miquinhos (ou sagüis) proliferaram por aqui e tornaram-se verdadeiras pragas em nossas matas.

Não haveria maiores problemas não fosse o fato de que esses primatazinhos são responsáveis pelo desaparecimento de várias espécies nativas, em especial pássaros. Vorazes, esses animais disputam fontes de alimento (já presenciei brigas memoráveis entre bandos de miquinhos e famílias de jacus por uma nespereira carregadinha!) e, pior, se alimentam de ovos. Sua “vítima” preferencial é o Tiê-Sangue. Um dos mais belos espécies da fauna alada de nossas matas.

De fato, desde que vim morar aqui, jamais havia avistado um tiê. Em compensação os miquinhos eram minha companhia mais frequente no quintal. De uns tempos para cá (já faz quase um ano), não sei explicar a razão, mas o fato é que os miquinhos parecem ter migrado. Sumiram. Coincidência ou não, ontem eu estava, como de praxe, fazendo uns trabalhinhos nos fundos do quintal quando um canto diferente me chamou a atenção. Olhei para cima e lá estava ele. Majestoso, elegante, consciente de sua beleza: O TIÊ!

Ele me olhava curioso e eu retribuía emocionado. Não sei se durou segundos ou minutos aquela mútua contemplação, mas tenho certeza de que, antes de alçar vôo ele entendeu plenamente quando eu lhe disse que era benvindo! Adoro os miquinhos, mas prefiro contemplá-los lá no agreste pernambucano, aqui sou mais o TIÊ! (e os jacus).
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Ivo Fontan