Gravidez não é doença, mas… | Ana Cláudia Bessa

Gravidez não é doença, mas…

Posted on 20 outubro 2010

Acompanhando a timeline do Twitter, apareceu o seguinte comentário:

Nos primeiros meses o meu era INSUPORTÁVEL! #sono

Me lembrei da minha gravidez, claro, e de como eu me sentia cansada, com sono incontrolável, uma fome que não tinha fim e vontade de não fazer nada! Tudo numa dimensão maior e que nunca tinha sentido.

Mas, peraí! Meu corpo estava gerando outro corpo! Meu corpo estava gerando outra pessoa. Isso deve demandar MUITA energia. Esse cansaço, essa fadiga, nada mais é que um sinal claro do nosso corpo, dizendo: slow…menos…fique quieta aí, que eu tô trabalhando duro aqui, pô!

A gente se sente como se estivesse doente sem estar.

Aí, me lembrei daquele velho ditado “velho deitado” que explora mulheres modernas: Gravidez não é doença.

Depois que fiquei grávida e vi como é, posso afirmar:

Gravidez não é doença mas tem sintomas – esse ditado nada mais é que papo para sugar a mulher e fazer ela se sentir culpada de não produzir. Gravidez dá sono, indisposição, enjôo, fome, cansaço…. afinal estamos gerando outra pessoa! Toda mulher devia ter direito a sossegar. Mundo cão este que a gente vive… aliás, até uma cadela consegue descansar na gravidez!

Outro dia vi uma garçonete grávida servindo mesas, dava pena. Ali não era opção, era necessidade e o empregador não queria nem saber, botava prá andar. Muitas mulheres ainda adiam a licença pois ou você morre de trabalhar com uma barriga enorme ou fica menos dias em casa com seu bebê. Dura escolha.

A sociedade nos empurra para este mundo sem sentimentos. Frio. Mas é preciso mudar a forma de ver a mulher e a maternidade. E isso cabe também à nós. Muitas mulheres acreditam na máxima de que gravidez não é doença e trabalham como loucas até o dia do parto. Muitas não abrem mão disso.

Mulher nenhuma é obrigada a ser mãe. Não quer abrir mão de nada, se dedicar a carreira, pense nisso. Cada mulher tem seu perfil. E a mulher que se dedica à carreira é importante para a sociedade. Só que cuidar direito dos filhos também é. E cuidar direito não é só prover financeiramente ou dar uma boa escola (que nem sempre são boas mesmo sendo as mais caras). Cuidar é estar presente, de verdade. Com afeto, amor, sem estresse… ou com o menor estresse possível.

Desculpem mas não consigo imaginar uma mãe que leve as duas vidas sem sofrer muito e sem fazer o filho sofrer. É muito punk!

Quando vejo uma mulher que fala: trabalhei até o último dia da gravidez, fui do trabalho para maternidade…penso comigo: tadinha. Dureza.Também tenho pena das que fazem isso por opção e se orgulham disso. No fundo, elas estão totalmente envolvidas pelo sistema e nem percebem.

Aí, sempre tem que pense que meu discurso é anti-feminista mas não é: as feministas têm seu valor ,isso não pode ser negado. Mas precisamos reencontrar o equilibrio e respeitar  mais o feminino essencial. Estamos muito sobrecarregadas, por isso precisamos dar um basta nisso e nos reequilibrar.

Se eu tenho uma resposta para esse dilema? Meio termo. Concessões são necessárias. Mas concessão não precisa ser anulação.

Baixando a bola, fazendo concessões, consumindo menos, gastando menos…estamos num circulo vicioso de trabalhar para consumir. Aí, pai se mata de trabalhar, mãe se mata de trabalhar para pagar prestação do carro zero, do consumo das novidades, da TV de LCD…e os filhos largados porque os pais precisam pagar as contas do que compraram e não precisam para viver. Todo mundo cheio de prestação, casa cheia, guarda roupa cheio de coisas que não precisam e continuam infelizes.

Os verdadeiros valores ficaram banais.

E curiosamente recebi na timeline a informação  de que os americanos fizeram as contas e salário de uma americana dona de casa deveria ser de + de 100.000 dolares/ano . Não vejo a maternidade como função remunerada mas dá a exata dimensão da quantidade de trabalho não valorizado.

E aí, claro, essa conversa toda me lembrou do Grupo Cria:

Assine o Manifesto pela valorização da maternidade.

[imagens: fotosearch.com.br / grupo cria]
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11 responses to Gravidez não é doença, mas…

  • Genilda Silva disse:

    Estou ingressando na missão de ser mãe! Estou com 7 meses de gravidez, e não trabalho fora (graças à Deus!), faço bordados em ponto cruz em casa, com os gráficos da internet.
    Fico imaginando a dureza das grávidas que precisam trabalhar pelo próprio sustento, ainda que o marido trabalhe (o mais sério são os casos das mães solteiras que são abandonadas pelo companheiro quando revelam a gravidez…)
    Sentia uma sonolência impossível no 1º trimestre de gravidez, agora estou no 3º trimestre e tudo parece mais difícil: o fôlego é curto, as variações de humor entre lágrimas e euforia é constante, meu corpo está pesado e lento para as tarefas mais simples.
    Imagino como seria se eu estivesse trabalhando… Acho que ficaria com pena de mim mesma!

  • Concordo totalmente com o seu texto e já estava concordando no twitter. Até porque estou, justamente, nessa fase de sonos e enjôos! Fiquei pensando também nessas pobres mulheres obrigadas a trabalharem até o final da gravidez: tem aquelas, executivas, de grandes empresas que se gabam disso e tem as outras, pobres funcionárias que nem a que você mencionou, que certamente não o fazem por opção!
    Não, gravidez não é doença, mas tem todos os sintomas sim! Vamos respeitar o nosso corpo, nosso momento e valorizar a maternidade!
    Bjs,
    Sut-Mie

  • Vanessa disse:

    Caramba, Ana, eu não conhecia este espaço aqui. Vou linkar. Olhe, concordo com vc e me lembro bem da lombeira que sentia na gravidez. Aquilo me incomodava porque eu não conseguia fazer nada, nem escrever. Cheguei a perguntar ao médico se eu voltaria ao normal depois. Acho que a mulher realmente carrega o mundo todo nas costas e sinto pelas que não podem, como eu , estar mais perto dos filhos.

    Abraço e parabéns pelo post.

    • Ana Cláudia disse:

      Oi, Vanessa!!

      Esse é meu espaço para falar de coisas mais pessoais.
      A gravidez tem vários estágios, né?
      Você tem razão, nem todas as mulheres podem ficar com os filhos, e além disso, não só por questões financeiras mas porque elas não tem o apoio do marido que é fundamental para isso.

      Beijos!

  • Nanda disse:

    Também me lembrei do grupo cria hoje!!! Ótimo texto. Devemos ser mais valorizadas por esse trabalho duro (e prazeroso) que é ser mãe!
    beijo

    • Ana Cláudia disse:

      A presença de bons pais e mães é fundamental para a formação de um bom carater para os filhos, não é? Como é possível não ver a importância disso para o mundo, né , Nanda?

  • Natália disse:

    Ana Claudia,
    Adorei seu texto! Concordo com o que você diz aí. E mais: não acho que isso se aplica só na gravidez. Na menstruação também, porque não? Nós, mulheres, geralmente tentamos ignorar nossos corpos, nossas necessidades, nossas dores para produzir (porque o sistema manda). E nos períodos de cólica, algumas mulheres sentem enjoos, cansaços e indisposição. Acho que as mulheres deveriam ouvir seus corpos, satisfazer as necessidades, tentar não ultrapassar os limites.
    Isso não é anti feminismo. Na verdade, isso é ser feminista. Entrar em contato com nosso interior, com nosso ciclo, com nossas dores…Valorizar isso.
    Na sociedade que vivemos, mulher que diminui a velocidade enquanto tá menstruada é fraca. A mesma coisa para mulheres grávidas.
    Imagino que deve ser muito mais prazeroso, entrar em contato com você mesma na gravidez.

    • Ana Cláudia disse:

      Natálias, vc lembrou muito bem!!! A indisposição que sentimos na menstruação tem tudo a ver também. Dizem que a menstruação é um momento de introspecção e recolhimento feminino. Imagina, antigamente, quando não existia absorvente, como era sair com aquele sangue todo saindo? Tinha que se recolher, não é?
      Quer dizer, a própria questão prática da situação, juntamente com as sensações físicas, me levam a crer nesta verdade.
      Adorei sua colocação!

  • [...] This post was mentioned on Twitter by ana claudia bessa and ana claudia bessa, ana claudia bessa. ana claudia bessa said: @natiischmidt @maeetudoigual @anasixx @leticiasarruda @nandabecker @viagempimpolhos virou post! Comentem lá! http://bit.ly/cZr7CL [...]

  • Eliane disse:

    Adorei o post e achei bárbaro que nosso papo tenha inspirado esse texto tão bacana. Me dá a sensação de que o twitter e as redes sociais em geral têm grande potencial para criar conteúdo relevante e útil para a sociedade e não só para inflar egos ou divulgar bobagens.

    Bjs,
    Eliane

    • Ana Cláudia disse:

      Eliane, já escrevi vários textos baseados na timeline do ttwitter, pego os trecho que eu falei (é o cuidado que tomo para não montar o textos com a fala de outras pessoas) e viram texto. Alí é ótimo para a gente concatenar as idéias. Recomendo…rs…

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