“Tudo tem seu preço” ou “as escolhas dos pais”
Posted on 29 julho 2009
Todo final de semestre a escola promove reuniões individuais com os pais de cada criança para falar da avaliação e dos progressos dos alunos. E eu, claro, adoro essas reuniões que são fartas em diálogo, troca de idéias, informações, orientações, etc.
E sempre fica claro que a escolha que fiz de colocá-los mais tarde na escola, tem seu preço e que quem paga, são eles. Afinal, seus colegas de turma entraram na escola, muito antes deles. Muito mesmo já que uma grande maioria entra aos 6 meses, ainda no berçário, para as mães que trabalham. Ou até antes, já que a licença maternidade é de 4 meses. Se você observar que meus filhos entraram com mais de 3 anos, basta fazer as contas do “atraso”.
Sim, eles pagam porque seus amigos, à vezes com idades menos avançadas estão à frente em tudo: conhecimentos, linguagem, dicção, psicomotricidade. Não que isso prejudique muito mas eles precisam correr porque, na verdade, não foram eles que entraram tarde. Os outros é que entram cedo demais. Contudo, é a demanda que manda no mercado e neste caso a demanda por crianças cada dia mais novas em escolas é maior do que o contrário. E isso gera, claro, uma quantidade de crianças mais estimuladas mais cedo. Já que os estímulos que se tem em casa são infinitamente menores e menos direcionados e eficazes que os estímulos escolares.
Eu remo contra a maré mas sempre me deparo com esses dilemas: fiz a escolha certa?
Fiz a coisa certa? E principalmente, fiz o melhor para eles?
Se por um lado, não tenho dúvidas porque é inegável o bem que proporcionamos quando mantemos nossos filhos mais tempo convivendo com a mãe e com a família enquanto as crianças são precocemente afastadas do convívio familiar (e muitas ficam o dia todo na escola) e precocemente estimuladas ou mesmo criadas (ou malcriadas) por babás ou pelos avós;
por outro lado, vejo na prática, o quanto meus filhos são infantis em relação às outras crianças que são logo cedo, quase que adultizadas. Eles ficam deslocados, não há dúvidas.
E mesmo estando numa escola muito diferenciada, eles precisam correr para alcançar os amigos. O bom, é que esta mesma escola diferenciada, tem alunos de várias idades na mesma turma e considera o desenvolvimento do aluno como individual. Ou seja, cada um tem seu ritmo, cada um tem seu tempo, cada uma tem uma atividade diferente na mesma turma. E se contabilizarmos que ainda há uma gama de materiais especialmente lúdicos envolvidos no aprendizado e na pedagogia da escola, isso fica mais tranqüilo. Mas ainda assim, as outras crianças, sujeitas aos mesmos estímulos, estão à frente porque entraram mais cedo.
Numa festa de aniversário, o aniversariante -aluno de uma das “melhores” –e mais caras– escolas da cidade– , teve, claro, a maioria dos colegas convidados sendo alunos da mesma escola. Foi impressionante ver a eletricidade dessas crianças. Fiquei assustada de ver meus filhos calmos e com brincadeiras infantis se deparando com aquele bando(bando, mesmo) de crianças que se comportavam como quase pré-adolescentes, tendo um ou dois anos a mais que meus filhos. Beiravam a delinquência jogando bexiga com água uns nos outros, sujando os banheiros, uma loucura. Na sala de jogos, todos inteirados aos vídeos games, enquanto meus filhos ou não se integravam na brincadeira ou brincavam com os livros e brinquedos educativos disponíveis em outro canto.
Meus olhos se encheram de lágrimas e conversei com meu marido se estávamos realmente preparando nossos filhos para o mundo selvagem a que estarão expostos.
E como se a própria natureza nos respondesse, em seguida, a recreadora chamou todos para brincarem de polícia e ladrão. Não sei se conseguirei relatar fielmente o que aconteceu.
Enquanto as crianças corriam descontroladas umas atrás das outras, meu mais velho ficou ao lado da “cadeia” parado observando. Todos corriam e gritavam. De repente, meu filho que era POLÍCIA e não tinha a atenção de ninguém, gritou: PEGUEI! E pegou, lá foi um ladrão para a cadeia. Aí, andou para o outro lado e gritou: PEGUEI 2! E de novo, outro ladrão. E foi pegando, um após o outro, gritava e olhava para nós, sorria e contava. Enquanto os outros pegaram um ou dois, meu filhote, pegou 7! Lotou a cadeia e terminou a brincadeira feliz.
Eu poderia terminar meu texto aqui, mas não posso deixar de falar o quanto isso significou para mim. Se hoje, todo mundo acha que os estímulos excessivos é que tornam as crianças antenadas com a atualidade, não posso deixar de comentar que diante do mundo corporativo que vivemos, foi uma criança que foi tarde para a escola, uma criança que não tem vídeo-game nem computador, uma criança que é estimulada a ser criança e brincar mais do que ver TV, a que cumpriu com eficiência e observação, com mais esforço mental do que físico a tarefa a que foi designada.
Não é isso que o mundo tanto deseja?
E não falo isso com soberba, falo isso como mãe que também se pergunta todos os dias o que é mais certo a fazer e se aprendi alguma coisa, não é que estou no caminho certo. Mas sim, que minhas crianças podem ser crianças enquanto precisarem porque é a observação do mundo com criatividade que as fará resolver seus problemas e dilemas na idade adulta.
16 responses to “Tudo tem seu preço” ou “as escolhas dos pais”



@anaclaudiabessa



Oi Ana! Não se sinta só com essas reflexões! Eu tenha a mesma impressão com relãção aos meus filhos e o tipo e educação qe estamos dando a eles! Mesmo assim, acredito que estamos mais certos do que errados.
Eu acredito que essa superestimulação das crianças vai ter um preço alto no futuro delas! Prefiro criar os meus com uma cabeça “pensante”, reflexiva, ao invés de deixá-los largados na tv, computador e tantas porcarias que tem por aí!
Pagamos um preço alto por isso, pois no fundo somos incompreendidos e taxados de chatos, mas o que importa é a consciência tranquila. É a sensação de dever cumpido!
Não podemos desistr…vamos a luta!
Bjs
Carla mamaecaprichosa@blogspot.com
CArla, é isso que me estimula, essa sensação de dever cumprido que vc falou. Isso é que vale… Bjs!
Ai Ana, que delícia ler seu texto!! Parabéns, mulher do presente e do futuro pelos filhotes crianças. Isso é muito bom. Eu vivo uma situação diferente que a sua, mas com indagações comuns. Até hoje não decidi para onde levar a Malu – ela está na escolinha desde 6 meses – mas vou tirá-la de lá em 2010. Eu já sofri muito, mas acho que agora chegou momento da mudança. Ela já brinca de escrever, sinto que ela realmente tem muito estímulos, está cansada da escola e ainda tem os probleminhas sociais com as coleguinhas. Em casa, nosso foco é livro, dança, rituais de comida e muita conversa. Eu tenho pulado e manipulado com as mãos menos (risos! ando com preguiça de brincar). Ela é uma criança calma, vergonhosa, mas entende o código maluco e ( ás vezes insuportável) do consenso. Isso parece bom, mas é o que mais me angustia. será que não estou dentro da bolha demais?
Ceila, cada família uma realidade. Acho que não tem receita de bolo. O mais importante e acho fundamental, você tem: o questionamento. O conformismo dos pais me deixa muito assustada. Fique tranquila que voc~e vai encontrar o caminho para ela, aquele que faz os olhos brilharem. Sua busca é sua principalmente ferramenta, ela mostrará o caminho!
Olá Ana Cláudia!
Vim parar no seu blog através do twitter. Sou pedagoga e esse assunto muito me interessa. Gostei de ler o seu texto. Você tá muito certa e não se preocupe, remar contra a maré dá medo, mas não deixa de ser a coisa certa a fazer!
Tudo de bom pra você e sua família,
Bel.
Bebel, que bom ouvir isso de uma pedagoga!!! Como é sua epxeriência com escolas, você é pedagoga atuante?
clap, clap, clap!
bjks
smack!!!!!
Ana, uma das coisas que mais admiro em você é o bom senso. Não é sempre que dá para vir te visitar aqui, mas quando venho sempre gosto do que leio, sempre aprendo, sempre me questiono, como você. Fazer o melhor é fazer aquilo em que acreditamos naquele momento. No entanto, nem todo mundo faz aquilo em que acredita porque nunca sequer parou para pensar no que acredita… a maioria pega o bonde do mundo e vai fazendo como todo mundo, sem pensar, sem questionar, sem observar. Esse enorme ponto você já tem a seu favor: você questiona, você pondera, você observa. Será que é mesmo válido estimular as crianças desde cedo? Será que é isso que vai fazê-las ser feliz no futuro? Será que é isso que vai fazê-las ganhar uma vaga de emprego amanhã? Será que é ganhar a vaga de emprego que é o importante? Para algumas pessoas é, para outras não. E o que eu penso que seria maravilhoso é que houvesse respeito pelas escolhas individuais de cada um. Por exemplo: há um ano estive envolvida com um grupo que tinha a intenção de criar uma escola diferenciada, algo baseado na Escola da Ponte, de Portugal. A minha ideia era ajudar a criança a desenvolver seu próprio potencial e a perceber o que era importante para ela. Outra pessoa do grupo já queria algo que não visasse vestibular e o mundo corporativo competitivo que muitas escolas visam, porque simplesmente abominava isso. Questionei: e se a criança/adolescente quiser entrar para esse mundo corporativo competitivo? Não é direito dela? Por não me identificar com essa ideia saí do grupo. Direito deles seguir em frente, direito meu seguir o que acredito. Você está seguindo o que acredita e só você poderá dizer se está funcionando do jeito que você acredita ou não. Se é certo ou errado não importa, uma vez que certo e errado é relativo e depende do ponto de vista de cada um. Não tenho filhos, mas acredito que faria o mesmo que você está fazendo. Parabéns pela coragem! Muita luz prá você e sua família sempre! Bjo, Lucia.
Lúcia, voc~e falou muita coisa legal: as pessoas simplesmente não questionam, nem sequer percebem que algo está errado. Essa escola que você cita me fez lembrar que uma das coisas que eu e meu marido conversamos é sobre nossa vonta de de morar no meio do mato. temos este direito? Temos o direito de privar os filhos de uma mundo tão diverso? Temos o direito de tirar deles um mundo que também tem seus encantamentos? Não temos. Temos que, na medida do possível mostrar os caminhos para que eles mesmos possam escolher.
E isso vai de encontro à sua idéia de escola: procure dar aos alunosas ferramentas para eles fazerem suas bolas escolhas, as que os façam felizes, seja qual for a escolha.
Só o tempo dirá se erramos ou acertamos.
Ah, Ana Claudia, se todas as mães se perguntassem assim todos os dias como você. Eu coloquei o meu por 4 horas com 1 ano e meio por um mês de experiencia, ele sentiu-se tão bem e vai tão feliz para a escola, cantando durante os 50 metros de caminhada que faz até chegar lá, que sei que fiz a escolha certa para ele. Nunca sabemos se estamos fazendo o melhor. O importante é querermos fazer o melhor e nos esforçarmos para isso e nos preocuparmos em ser mães ao invés de apenas termos filhos.
Um abraço
Vanessa, exatamente, não tem receita. Muita gente que me lê acha que eu rotulo minhas escolhas como as melhores. Pois não acho isso. O que me preocupa é a maioria dos pais que simplesmente não escolhe e sim é escolhido, pela loucura do sistema que vivemos.
Cada criança tem seu momento. E acho até que se os meus fossem antes para escola, também teriam gostado.
Beijos.
Mãe coruja! Contudo, acho que vc chegou à uma conclusão, né?rs
Não posso julgar se sua escolha foi acertada ou não (acho que isso só o tempo dirá), mas posso dizer (pelo o que acompanho no blog e Twitter) que vc, como mãe coruja que é, dificilmente admitiria que errou na criação dos filhos.
Bom, certo ou errado, o importante é isso: buscar ver sempre o lado positivo das coisas. Só tome cuidado para não ser tão “parcial” e acabar por não perceber o outro lado da situação (apenas para aprovar suas atitudes).
Boa sorte!
Luluka, não tem corujice no texto não…rs…pelo contrário: tem uma mãe que se questiona todos os dias. TODOS. Eu não tenho dificuldade de admitir meus erros , nem com os filhos. Já pedi desculpas para eles várias vezes. Não existe receita de bolo… mas no caso do texto acima, foi uma situação que observei e que me chamou atenção. Eu entendo sua cítica mas gostaria que voc~e citasse mais sua opinião sobre onde, nesta situação, eu estou vendo as coisas sob um ânguilo de mãe coruja, incapaz de perceber o pontos críticos dessa história. Me ajude.
Beijos.
Oie…Ana Cláudia…tdo bem??
Gosto muito do seu blog, por isso
tem presente pra vc lá no meu
bloguinho…
bjks!!
Dá uma passadinha lá pra ver, ok!!!
Verônica, quando fui lá ver, seu blog havia sido retirado. Desculpe a demora. #vidademae …