Um relato de parto – parte 9 | Ana Cláudia Bessa

Um relato de parto – parte 9

Posted on 19 junho 2009

RETIRADA DOS PONTOS

Ao contrário de todas às vezes, desde que me consulto com ele, pela primeira vez ele não nos recebeu na porta como de costume (e como faz com todas as suas pacientes). Talvez tenha sido uma infeliz coincidência. Entramos e ele nem estava em sua mesa.

Infelizmente, me pareceu que meu plano de parto com relação ao período após o nascimento não foi passado à pediatra que acompanhou o parto, portanto ninguém parecia saber de nada a esse respeito. A doula é que cuidou disso pra nós, na medida do possível.

Por fim, revivendo tudo isso, só peço a Deus que um dia me mostre porque teve que ser assim. Sinto que meu médico não só não foi humanizado comigo, como foi desumano. Minha decepção foi além da cesárea, ele sequer me apoiou emocionalmente quando mais precisei.

Eu não vi meu filho nascer, não o abracei quando ele chegou a este mundo frio, saindo do quentinho da minha barriga. Não pude amamentá-lo logo, porque estava dopada demais, e sequer me lembro da primeira vez que o vi. Nas imagens da sala de cirurgia estou entubada, ao lado do meu filho, que foi colocado perto de mim a meu pedido. Fiz esse pedido aos prantos, antes de ser anestesiada.

Ele teve uma baixa glicêmica, e nada me convenceu que isso não pode ser uma reação à fortíssima anestesia a que fomos expostos e que poderia ter sido evitada, com medicação para as acnes durante o pré-natal ou num parto normal sem anestesia (que era o nosso desejo) caso usássemos de algum artifício para esperar mais um pouco.

Não acho que ele é um mau médico por causa disso, mas foi comigo. Por que comigo? Não sei, e não me faço este tipo de pergunta. É como quem sofre um acidente e fica com seqüelas. Ficar me perguntando “por que comigo”, não resolve nada e não parecem mesmo existir respostas. São coisas que passamos e temos que aprender.

Hoje, sinto que eu somente teria meu parto normal se tudo tivesse corrido dentro de TOTAL normalidade. Qualquer intercorrência levaria a uma cirurgia, mas infelizmente estava tão confiante que acabei não vendo a verdade. Talvez meu médico tenha dado vários sinais no decorrer das consultas. Sinais que fomos incapazes de perceber porque acreditávamos o tempo todo que jamais isso aconteceria sendo acompanhados por um médico como ele.

Mas será que nós soubemos realmente escolher nosso médico? Será que ele era o médico ideal para nós? Hoje vejo que não. Descobri que existe uma grande diferença entre médico vaginalista e médico humanista. Assim como existe diferença entre quem deseja um parto vaginal e um parto humanizado.

Chorei muito depois do parto e já em casa. Meu marido foi maravilhoso e ficou muito preocupado comigo, talvez com medo que eu tivesse uma depressão. Não cheguei nem perto da depressão e ao contrário do que muitas pessoas pensam, a dor do parto nada tem a ver com nosso filho. Adorei ser mãe e amamentar é maravilhoso. Fico grata á Deus por ele estar bem mas lamento não ter dado a ele o parto que tanto sonhei para nós. Não sei se fui eu quem não pôde dar ou se me impediram. Talvez seja um misto das duas coisas. Não me culpo, mas lamentarei sempre toda a tristeza daquele momento que eu sempre sonhei que seria tão feliz.

Como eu queria ter podido sentir as contrações, as dores, os pródromos…e não ter hoje este corte na minha barriga e, principalmente, no meu útero. Eu era inteira, hoje me sinto mutilada e não mais nas perfeitas condições que tinha para meu segundo parto, no futuro. O que se confirmou e contarei um dia. Precisei passar por tudo isso para desejar, de todo o meu coração, ter o próximo filho em casa e poder dizer, com a minha experiência de já ter passado por essa cirurgia horrível, que existe parto normal após cesárea. Minha sogra mesmo teve dois PN’s depois da primeira cesárea. Mas o primeiro parto, o parto de uma mulher primípara, quando não é normal, limita as chances do segundo parto porque o útero não passou pela experiência do parto. Sendo assim, o segundo filho nascerá como se fosse o primeiro parto, num útero que não é íntegro. Não é impossível mas é um motivo a mais para os médicos cesaristas deitarem e rolarem nessa desculpa para nos operar novamente. Além disso, nosso corpo não responde com a mesma facilidade como quando já tivemos um parto normal. Ou seja, o primeiro parto normal é um diferencial importante que nos é roubado, literalmente quando nos operam sem necessidade clínica.

Tem uma frase que li sobre “dependências”, que define exatamente como nos sentíamos em relação ao médico e o que esperávamos dele:

“Alguém em quem se deposita confiança, afeto, carinho e amizade, além de nos suprir da confiança de que tudo continue a ocorrer da melhor maneira possível.”

Se isso é ser conivente, autoconfiante demais, dependente, ingênuos… então fomos tudo isso.

Nunca pensei em parir sozinha. Sempre quis, pelo menos,  meu marido segurando minha mão, mesmo que ele só pudesse fazer isso, como foi o que acabou acontecendo. Quanto ao médico, espero que, a partir de agora, aconteçam muitos partos normais com ele, assim tudo o que passei terá servido para alguma coisa. No meu caso, ele seria um amigo com conhecimentos em medicina que estaria ao nosso lado naquele momento. Infelizmente, tivemos o médico, não tivemos o amigo. Talvez, minha dor hoje fosse menor ou até nenhuma, se tivéssemos tido somente o amigo.

Leia +

Um relato de parto – parte 1 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1834
Um relato de parto – parte 2 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1859
Um relato de parto – parte 3 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1863
Um relato de parto – parte 4 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1959
Um relato de parto – parte 5 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1971
Um relato de parto – parte 6 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=2057
Um relato de parto – parte 7 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=2114
Um relato de parto – parte 8 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=2164
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8 responses to Um relato de parto – parte 9

  • davi disse:

    O homem médico não se saiu bem como homem. Mas não diga isso:
    – ˜”Não me culpo, mas lamentarei sempre toda a tristeza daquele momento que eu sempre sonhei que seria tão feliz.”

    Lembres-se, Deus não nos da fardos mais pesados do que podemos carregar, Ele nos da o que precisamos, graças a Deus!

    As vezes as coisas não saem como agente quer, mas o que agente quer não é sinonimo de que é o melhor pra gente.

    Não se esqueça de agradecer por tudo! Fé! Fique com Deus!

  • Ana Cláudia disse:

    Cris, é mais complicado do que ter informação. A coisa está tão crítica que a mulher precisa simplesmente ter muita coragem para peitar a possibilidade de parir por sua conta. Não que ela não seja capaz, o problema e se ver diante de um dilema com a criança prestes a nascer. Situações como a sua, são indicação de cesárea. mas isso é uma minoria dos casos.
    Estou lendo um livro onde uma grávida conta sua gravidez e no capítulo do parto, foi clara a postura de seu médico cesarista. E ela nem se deu conta. Foi mutilada, tolida de sua vontade, e SEM INDICAÇÃO CLÍNICA sofreu uma intervenção cirúrgica que somente deveria acontecer em caso de emergência.
    Triste.

  • Eu lembro que voce só avisou aos amigos do nascimento do bb mais e 1 mes depois e mesmo assim ao telefone me disse que foi traumatico.
    Voce sabe que eu nao passei nem por metade do que voce passou e que tive o apoio incondicional da minha obstetra, já que no meu caso eu tive um descolamento de plascenta e a pressão se elevou muito. Descolamento este que foi confirmado quando da retirada da mesma. Ela teve o cuidade de chamar meu marido e mostrar a parte já sem vida da plascenta.
    Também chorei muito, já que nao aceitava o fato de ter me preparado tanto e a cesarea ter sido necessária, achava que a culpa era minha e tb chorava muito. A obstetra foi muito carinhosa e cuidadosa, me ligava para saber como estava, uma pessoa por quem eu tenho um grande carinho e se um dia tentar outro filho, com certeza ela será minha primeira opção de obstetra.
    Como sabemos, só a informação traz a segurança, e a confiança vem logo depois.
    bjks

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