Um relato de parto | Ana Cláudia Bessa

Um relato de parto

Posted on 08 abril 2009

cesarea

Durante muito tempo pensei em colocar aqui o relato de parto do meu primeiro filho.

Nunca tive ânimo de retomar tudo isso e sempre pensei que é um texto grande demais (foram 11 páginas) para postar no blog.

Um dia uma amiga disse: posta em partes.

Mesmo assim, sempre relutei.

Este semana, durante uma consulta com uma nova pediatra para a crianças, revivi um pouco dessa história e resolvi contar aqui no blog.

Segue o relato da cesárea exatamente como me senti em partes, que vou postar uma vez por semana porque é bastante longo. E vou tentar contar até o fim, não é fácil reviver.

Não estou colocando o nome do médico porque não é o fato relevante, a princípio.

Sei que deve ser difícil para algumas pessoas separar os procedimentos e o médico, mas no meu entender, o mais importante é questionar os procedimentos para podermos escolher o profissional de acordo com o que queremos.

Ele nos deu vários sinais que nós nos negamos a enxergar.Pontos que, para quem quer realmente ter um parto normal no Brasil, onde 80% dos partos são cesáreos, pode fazer toda a diferença entre o nascer natural e o cirúrgico.

Felizmente, já teve um caso, depois da minha cesárea, de uma pessoa que fez o que eu devia ter feito, essa pessoa avaliou as condutas desse médico e foi para casa de parto, feliz, ter seu parto natural sem intervenções.

Que meu parto seja exemplo positivo e uma exceção, apesar de ter sido uma realidade tão dura e da qual ainda não me recuperei totalmente.

Nem sei se recuperarei.

MEU IDEAL

Mesmo antes de engravidar, nunca cogitei fazer uma cesárea. Mudei de médico 4 vezes. Subdimensionei o sistema achando que meu “empoderamento” bastava. A partir da decisão da cirurgia, o médico que confiei não existia mais. Não me olhou nos olhos nenhuma vez sequer e quando o fez foi para justificar o injustificável porque nada mais mudaria a realidade do corte feito no meu útero e na minha alma. Hoje vejo, infelizmente,  que eu deveria ter ouvido o coração do meu filho que batia perfeitamente, ter visto a cor e o perfume do líquido que saía de dentro de mim (claro e perfumado…), pela total ausência de infecção (visto que eu não apresentava nenhum sintoma) e se fosse necessário, ter prevenido a POSSÍVEL infecção e ter dito NÃO à cesárea. Mas eu não sabia nada sobre infecção amniótica, pelo tempo de bolsa rota com grande perda de líquido sem nenhum sinal de trabalho de parto e o receio de ficar sem a assistência de um médico já com todo este quadro, acabei me entregando. Este foi meu maior erro e a minha responsabilidade. Contudo, vejo que eu não teria condições (emocionais) de fazer de outra forma.

Na primeira consulta com o médico, nós ficamos muito bem impressionados. O único “porém” que me chamou a atenção foi que quando mencionei a lista que participava e discussão sobre parto, ele deu a entender que não conhecia, mesmo levando em consideração o número de clientes que chega até ele através da lista.

Mas saímos satisfeitos porque ele afirmou que fazia cesáreas mas que tinha a consciência tranquila de que somente eram feitas em casos de real necessidade. Era o que procurávamos.

Minha gravidez foi tranqüila e evitei o máximo que pude fazer ultrassonografias. Inclusive, deixei de fazer 2 que o médico pediu, mas ele também nunca perguntou por elas, me sinalizando que elas não eram imprescindíveis, apenas rotina.  Mas mesmo assim, fiz muitas porque ele tinha um aparelho no consultório dele

Fiz uma carta relatando meu plano de parto e ele não demonstrou uma boa receptividade mas leu até o fim dizendo que não precisava disso porque ele já sabia o que eu queria e tudo que estava escrito ali era a forma como ele trabalhava e ainda me questionou alguns pontos do plano, alegando que muita gente chegava ali com este plano de parto copiado de algum lugar. Neste momento, cogitamos procurar um médico B. Infelizmente o estouro repentino da bolsa foi antes de fazermos este contato com esta segunda alternativa.

Tínhamos direito um hospital x e ele disse que, lá, ele só faria o parto se fosse de dia. Em nossa última consulta antes do parto (nem imaginávamos que seria a última) fomos decididos a ter uma conversa definitiva com o médico a respeito disso e fechar esta questão da seguinte forma: Escolhemos o hospital x mas não queremos que o sr. faça nosso parto insatisfeito. Caso o sr. não queira fazer lá, vamos tentar outro médico. E íamos mesmo.MAS a resposta dele foi que a principal preocupação era comigo, quanto é ele, para ficarmos tranqüilos que independente da hora, a “gente dá um jeito”.  Saímos de lá aliviados. Contudo, hoje, não tenho certeza de que isso (o hospital longe e o “jeito” que ele pretendia dar..) não tenha sido uma forte contribuição para que meu parto terminasse em cesárea.

continua na próxima semana

_____________________________________________________________________________

Ana Cláudia Bessa

Leia+

continua na próxima semana

Um relato de parto – parte 1 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1834
Um relato de parto – parte 2 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1859
Um relato de parto – parte 3 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1863
Um relato de parto – parte 4 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1959
Um relato de parto – parte 5 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=1971
Um relato de parto – parte 6 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=2057
Um relato de parto – parte 7 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=2114
Um relato de parto – parte 8 : http://futurodopresente.com.br/blog/?p=2164
Um relato de parto – parte 9: http://futurodopresente.com.br/blog/?p=2224

Bookmark and Share

11 responses to Um relato de parto

  • [...] de parto – parte 7Futuro do Presente .» Blog Archive » Um Relato de Parto – parte 6 em Um relato de partoFuturo do Presente .» Blog Archive » Um relato de parto – parte 7 em Um relato de parto [...]

  • [...] Presente .» Blog Archive » Um relato de parto – parte 2 { mai 26, 2009 – 01:05:38 } Futuro do Presente .» Blog Archive » Um relato de parto { jun 4, 2009 – 12:06:31 } Futuro do Presente .» Blog Archive » Um relato de parto – [...]

  • [...] comenta Cristiane Fetter em Eu penso no futuroFuturo do Presente .» Blog Archive » Um relato de parto em Um Relato de Parto – parte 6Futuro do Presente .» Blog Archive » Um [...]

  • Evellyn disse:

    Ana / Renata,

    obrigada pelo carinho em me responderem. Não fui clara no meu comentário: A minha médica faz parto normal, sim, eu serei atendida por plantonista caso, por exemplo, a bolsa estoure e eu chegue no hospital num dia em que ela não atende. Vou arriscar e tenho fé que a Bia vai chegar num dia em que ela poderá fazer meu parto. Só me assusta saber que com 31 semanas ela já está encaixada e deu sinais de quer chegar a qualquer momento…

    Ah, aceito dicas de doulas em Recife!

    Beijos

  • Ana Cláudia disse:

    Renata, amiga, que comentário, heim? Obrigada de todo coração. Sua médica tentou muito mais que a maioria esmagadora dos obstetras tentariam. Minha história ainda tem muitos capítulos, foi muito dura e hoje pensei o dia inteiro, sobre o quanto abrir tudo isso aqui no blog, valeria à pena. Mas sempre vale. Se cada vez que eu contar minha história, uma mulher se questionar sobre seu parto, já valerá à pena. Sem demagogia.

    E concordo plenamente sobre o que você disse sobre alguns ativistas do parto, inclusive saí de um grupo e me afastei do movimento justamente por causa de um grande número desse tipo de gente. É como na internet, algumas pessoas conseguem destaque e a vaidade toma conta da pessoa fazendo-a esquecer do significado real e importante do que ela conquistou e do quanto ela tem responsabilidade sobre os rumos que sua aturiação pode contribuir para fazer essa luta ou espaço ser melhor, relevante para tudo e todos.

    Obrigada por dividir comigo sua história. você vai ver que eu também chorei muito.

  • Ana Cláudia disse:

    Oi, Evellyn! Minha história está apenas começando. Aconteceu muita coisa. Sua médica assusta quando admite que não faz parto normal. Mas isso pode ter muitas explicações e nos fundo, é melhor assim do que ela fazer um parto sem ter preparo, por exemplo. Acadêmicamente, sinto que os médicos não recebem o treinamento necessário para respeitar a natureza do nascimento. Aprendem a operar e que assim, são eles os grandes detentores da salvação. Não fosse isso, não veríamos tantos estudantes de medicina cheios de arrogância. Mas que é um absurdo o médico admitir que operar um paciente sem Indicação clínica, isso é. Devia ser impedido de exercer a profissão. Vai ser dermatologista, poxa!
    De qualquer forma, eu acredito que você realmente terá mais chances de ter seu parto normal se for atendida pelo plantonista. Uma das coisas que eu não fiz e que deveria ter feito é largar o médico que me acompanhava e ter ido para casa de parto, onde eu seria recusada (porque ultrapassei o limite de 12 horas de bolsa rota) e seria encaminhada ao hospital referência. Lá provavelmente, eu seria acompanhada e observada durante mais algum tempo antes de se partir para a cesárea.

    Assim como você , eu nem cogitei um parto domiciliar, um grande erro. Para primiparas, acredito piamente que no Brasil é a única chance real de se ter um parto humanizado e que respeita o nascimento e o corpo da mulher.

    Você não consegue uma parteira por aí, levando em consideração que a distância entre as duas gravidezes, possibilita que você tente o parto natural como se fosse seu primeiro parto?

    obrigada por comentar, muito obrigada, viu?

  • Renata disse:

    Oi Ana, que coragem, heim? Remexer velhas feridas. Sabe que nunca pensei em relatar em detalhes o meu parto? Mas lendo o seu me deu um frio na espinha, deve ser difícil, mas pode ser muito bom, do ponto de vista terapêutico mesmo.
    No meu caso, eu era uma total ignorante, mas mesmo assim queria parto normal. Achava melhor, afinal de contas a natureza nos criou pra parir pela perereca, né? Sabia que no Brasil a grande maioria dos médicos faz cesárea, por isso procurei uma médica que faz parto normal. Sabia que havia mulheres que tinham filho em casa, inclusive conhecia bem uma, mas ignorei a possibilidade, nem pensei no assunto. O índice de cesáreas da minha médica era de 20% e na época desconhecia toda a polêmica a respeito do intervencionismo médico no parto. Que foi o que no final aconteceu comigo, que aceitei sem questionar. Meu trabalho de parto evolouiu com ocitocina sintética na veia, minha médica tinha dito que faria uma episiotomia e eu havia concordado, e eu não tinha dúvidas de que ela sairia pela perereca, mesmo tendo ido para o hospital com 4cm de dilatação, contraçòes, mas sem sentir dor alguma (o queindicava que Pipoca estava alta e não havia encaixado). Senti bastante dor pq a anestesia foi reduzida qdo o ritmo da dilatação diminuiu. Foram muitas tentativas de encaixá-la, fiz muita força, minha médica tentou girá-la, rolou um papo sobre minha bacia não ter passagem. E Pipoca não encaixou mesmo e depois de uma dia inteiro tentando, sem nenhuma conversa sobre o tão temido “sofrimento fetal”, fomos pra cesárea. Só parei de chorar depois que “a tiraram da minha barriga”- falo isso com dor no coração, mas foi assim mesmo que aconteceu.
    Não culpo minha médica, ela fez o que podia fazer de melhor por mim. Já pensei muito que se talvez não tivesse havido “sorinjo”, se tivesse deixado o trabalho de parto evoluir sme intervenções, e em casa, ela tlvez tivesse encaixado. Mas não me culpo pq a ignorância fazia parte do que eu era naquele tempo. Fico triste sim, mas sem traumas ou ressentimentos. Foi o que tinha que ser e minha filha abriu meus olhos pra muita coisa, foi assim a história de seu nascimento, e essa é a história da minha vida. Aprendi muito depois, conheci ativistas do parto natural, adoro o tema. Tem muita patrulha, e isso é um pouco iritante, tem mulheres que ficam tão maravilhadas com a experiência que realmente demostram se sentir superiores às mortais que sofrem cesárea. Sabemos que isso aocntece tb com a amamentação, né? Mas acho que isso acontece em todo movimento revolucionário, e tem a patrulha inversa tb. Vc leu o testo do Ricardo Jones que postei no blog?
    Ah, queria comentar o comentário da Evellyn acima…Evellyn, apesar de continuar sendo uma absurdo, sua médica ao menos assume que não fará o parto, pior são aqueles que inventam “desculpas”ou fazem terror com a grávida. Se precisar de indicação de doula ou médico humanizado em Recife, até mesmo só pra conversar e tirar dúvidas, posso tentar conseguir pra vc. E não se deixe presionar por nenhum dos “lados”, acima de tudo acredite em você e no poder feminino da nossa natureza.
    Beijo
    Renata

    beijo
    Renata

  • Evellyn disse:

    Ana,
    seu texto me fez refletir (mais uma vez) sobre o tema. Quero muito ter um parto normal, mas…
    Na gravidez do Gui eu tive uma cesárea porque, segundo o médico, não tive dilatação. Eu era boba e medrosa, queria ter normal porém meu inconsciente não queria sentir dor. Depois que a bolsa estourou e fui para ohospital, fui preparada para uma cirurgia (e nem tinha noção disso): permaneci deitada, rasparam-me etc etc. Depois de 6 horas com dilataçãode apenas 4cm, ouvindo o médico falar em possível sofrimento fetal, fui pra sala de cirurgia achando que estava tudo certo e que era o melhor para todos. Foi um parto tranquilo, sem problemas, Gui nasceu saudável e berrando, rs… Mas o pós-operatório… 15 dias com dor e incômodo!
    Isso me fez mudar a maneira de enxergar a cesárea.
    Agora, na gravidez da Bia, farei de tudo para ter o parto normal. Comecei a ler muito sobre o assunto, a trabalhar minha cabeça (porque confesso que continua medrosa, mesmo que menos boba a ponto de me enganarem nesse assunto!). Longe de familiares, fico “arrepiada” só em pensar em sentir as dores do pós-operatório de novo… Já tive o primeiro “problema” contornado: minha médica agenda as cesáreas para determinado dia no hospital onde me trato, porém, parto normal, é com o médico plantonista… Com muito choro, já a convenci de que ligarei pra ela do jeito que for, como assim, faz meu pré-natal e outro médico faz o parto? Cadê as campanhas de incentivo ao parto normal? De qualquer forma, se ela não puder, vou encarar o médico plantonista mesmo. A cesárea anterior não influencia no meu caso porque, segundo minha médica, 10 anos depois é como se fosse a primeira gravidez. Meu único receio é o remédio que estou tomando para inibir o trabalho de parto prematuro, não sei até que ponto ele interfere no trabalho de parto normal…
    Enfim, é um assunto sempre pertinente e que eu tenho adiado muito escrever no meu blog. Acho que vou aproveitar esse comentário/post, rs.
    Beijos!!!!

  • Leave a Response

    Recent Posts

    Tag Cloud

    Amamentação Ato Sustentável Blogosfera Brasil Campanhas cesárea Consumidor Consumo Consciente Contra a Impunidade crianças Datas Comemorativas Direito da Criança Ecologia Educação Escolar Educação Familiar Educação infantil Empresas Ensina e Educa Eu Eventos Faça a sua parte Gravidez infância maternidade micropost Mulher Nossos Deveres Nossos Direitos Notícias Nós na Blogosfera Outros Blogs Pais e Filhos parto parto humanizado Parto Natural Parto no brasil Política Sim políticos Reciclagem Relacionamentos Saúde sustentabilidade Tenha Atitude Vídeos Ética

    Meta

    Ana Cláudia Bessa is proudly powered by WordPress and the SubtleFlux theme.

    Copyright © Ana Cláudia Bessa