Por quem os sinos dobram?
Posted on 16 fevereiro 2009
Dia 07 de fevereiro passado, completou 2 anos da tragédia do menino João Hélio que foi arrastado vivo até a morte por bandidos que arrancaram com o carro de sua mãe mesmo com ele tendo ficado preso ao cinto de segurança. O texto abaixo foi uma grande inspiração para mim quando na época da tragédia eu senti necessidade de fazer alguma coisa pelo futuro que vamos deixar para nossos filhos. Como acredito que tragédias como essa, não podems ser esquecidas, convido-os a ler este excelente texto de Paulo Coelho, que me inspirou e ainda me inspira sempre que leio.
Então estamos nos aproximando cada vez mais do Mal Absoluto. Quando rapazes, em pleno controle de suas faculdades mentais, são capazes de arrastar um menino pelas ruas de uma cidade, isso não é apenas um ato isolado: todos nós, em maior ou menor escala, somos culpados. Somos culpados pelo silêncio que permitiu que a situação em nossa cidade chegasse a este ponto. Somos culpados porque vivemos em uma época de “tolerância”, e perdemos a capacidade de dizer NÃO. Somos culpados porque nos horrorizamos hoje, mas nos esquecemos amanhã, quando há outras coisas mais importantes para fazer e para pensar. Somos os olhos que viram o carro passar, o medo que nos impediu de telefonar para a polícia. Somos a polícia, que recebeu alguns telefonemas através do número 190, e demorou para reagir, porque o Mal Absoluto parece já não pedir urgência para nada. Somos o asfalto por onde se espalharam os pedaços de corpo e os restos de sonhos do menino preso ao cinto de segurança. A cada dia uma nova barbárie, em maior ou menor escala. A cada dia algum protesto, mas o resto é silêncio. Estamos acostumados, não é verdade?Muitos séculos atrás, John Donner escreveu: “nenhum homem é uma ilha, que se basta a si mesma. Somos parte de um continente; se um simples pedaço de terra é levado pelo mar, a Europa inteira fica menor. A morte de cada ser humano me diminui, porque sou parte da humanidade. Portanto, não me perguntem por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.” Na verdade, podemos pensar que os sinos estão tocando porque o menino morreu, mas eles dobram mesmo é por nós. Tentam nos acordar deste cansaço e torpor, desta capacidade de aceitar conviver com o Mal Absoluto, sem reclamar muito – desde que ele não nos toque. Mas não somos uma ilha, e a cada momento perdemos um pouco mais de nossa capacidade de reagir. Ficamos chocados, assistimos às entrevistas, olhamos para nossos filhos, pedimos a Deus que nada aconteça conosco. Saímos para o trabalho ou para a escola olhando para os lados, com medo de crianças, jovens, adultos. Entra ano, sai ano, mudam-se governos, e tudo apenas piora. O que dizer? Que palavra de esperança posso colocar aqui nesta coluna?Nenhuma. Talvez apenas pedir que os sinos continuem tocando por nós. Dia e noite, noite e dia, até que já não consigamos mais fingir que não estamos escutando, que não é conosco, que estas coisas se passam apenas com os outros. Que estes sinos continuem dobrando, sem nos deixar dormir, nos obrigando a ir até a rua, parar o trânsito, fechar as lojas, desligar as televisões, e dizer: “basta. Não agüento mais estes sinos. Preciso fazer alguma coisa, porque quero de volta a minha paz”. Neste momento, entenderemos que embora culpemos a polícia, os assaltantes, o silêncio, os políticos, o hábito, apenas nós podemos parar estes sinos. Nosso poder é muito maior do que pensamos – trata-se de entender que não somos uma ilha, e precisamos usá-lo. Enquanto isso não acontecer, o Mal Absoluto continuará ampliando seu reinado, e um belo dia corremos o risco de acreditar que ele é a nossa única alternativa, não existe outra maneira de viver, melhor ficar escutando os sinos e não correr riscos. Não podemos deixar que chegue este dia. Não tenho fórmulas para resolver a situação, mas sou consciente de que não sou uma ilha, e que a morte de cada ser humano me diminui. Preciso parar minha cidade. Não apenas por uma hora, um dia, mas pelo tempo que for necessário. E recomeçar tudo de novo. E, se não der certo, tentar não apenas mais uma vez, mas setenta vezes. Chega de culpar a polícia, os assaltantes, as diferenças sociais, as condições econômicas, as milícias, os traficantes, os políticos. Eu sou a minha cidade, e só eu posso mudá-la. Mesmo com o coração sem esperança, mesmo sem saber exatamente como dar o primeiro passo, mesmo achando que um esforço individual não serve para nada, preciso colocar mãos à obra. O caminho irá se mostrar por si mesmo, se eu vencer meus medos e aceitar um fato muito simples: cada um de nós faz uma grande diferença no mundo.
Paulo Coelho
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Leia sobre a tragédia: http://oglobo.globo.com/rio/mat/2007/06/08/296073544.asp
16 responses to Por quem os sinos dobram?



@anaclaudiabessa



Pois é…Hoje quase ninguém lembra.
E nem de tantos outros, inclusive os que o pai matou, esquartejados.
A vida é assim…
Denise,
É impressionante, a vida segue o seu rumo, as pessoas se esquecem e geralmente é a família que segue com a dor, com a sensação de impunidade, com a sensação de abandono…
Enquanto estivermos sob o comando de um código penal falho, de uma justiça lenta e parcial, de escolas falidas, de família desunidas e desmembradas e de uma sociedade passiva, omissa e negligente isso ainda vai acontecer.
Há horas que sinto que o mal ganha, que nada vai mudar principalmente vendo que o dia a dia é o mesmo, nada está sendo feito e muitas coisas ruins estão acontecendo, muitos João Hélio e João Roberto se calam na violência urbana.
Será que o mais certo é cuidar dos meus e o resto que se vire? Impossível, pelo menos vivendo em sociedade é iludir-se e jogar o problema para frente.
Até quando a sociedade vai viver calada diante de tanto mal?
Estou desanimada…
Mudando de assunto, no meu blog, indiquei um selinho para você, o Lemonade Award, que devemos dedicar a blogs que demonstram grande atitude ou pelos quais você tem gratidão.
O link para o post é esse: http://cafofodajack.blogspot.com/2009/02/aiai-eu-ganhei-meu-primeiro-selinho.html, espero que aceite o meu humilde selinho…
Beijos,
Jack
Não é nem o caso de mediocridade, Ana. na verdade o que existe é a prevalência dos interesses econômicos em todos os poderes, em todas as esferas, em todas as instâncias…falo por experiência, felizmente nunca me envolvi pessoalmente com nada assim, mas tenho conheicmento do funcionamento de uma série de processos, nas esferas pública e privada, e posso te dizer que em tudo há interesses envolvidos. É desalentador…
Esqueci de colocar a foto da notícia acima:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0506200837.htm
E não posso deixar de comentar que os donos desses matadouros deveriam ser presos em flagrante: por exploração de menores, falta de higiene e crueldade com animais. Já existem formas menos traumáticas para matar animais de abate.
Gente…crianças e adolescentes trablhando com pés nas fezes e bebendo sangue do animais…é demais. A justiça brasileira é mesmo medíocre ao permitir que isso aconteceça sem punição severa!
Crianças trabalham em matadouros do Rio Grande do Norte
Blitz do Ministério Público do Trabalho localizou jovens que mantinham contato direto com as fezes dos animais
Maioria das crianças e adolescentes trabalhava sem equipamento de proteção no corte de vísceras e abate do gado
PABLO SOLANO
DA AGÊNCIA FOLHA
Uma blitz do Ministério do Trabalho localizou crianças e adolescentes trabalhando em matadouros públicos de três cidades do interior do Rio Grande do Norte.
De acordo com a auditora fiscal Marinalva Cardoso Dantas, os jovens -cerca de 25- tinham contato direto com as fezes dos animais ao trabalhar no corte de vísceras bovinas.
“São locais perigosos, com pessoas agressivas”, disse. As blitze ocorreram em Nova Cruz, São Paulo do Potengi e João Câmara, localizadas a menos de 100 quilômetros de Natal, e foram resultado de denúncias feitas pelo Conselho Tutelar de Nova Cruz.
Segundo a auditora, que participou das ações, a maioria das crianças e adolescentes trabalhava com os pais nos matadouros e não usava equipamentos de proteção ao atuar no corte de vísceras, na limpeza e no abate dos animais.
Dantas disse ainda que muitos desses jovens estavam descalços, em contato direto com o sangue bovino no chão. Relatou casos de crianças e adolescentes que disseram gostar de beber o sangue dos animais.
As fiscalizações foram feitas às vésperas de feiras. Segundo a auditora, o trabalho começava a tarde e ia até a madrugada.
“No matadouro de João Câmara, assistimos às mortes mais brutais dos bois. O animal era puxado por uma corda por um adolescente, que lhe cobria os olhos com um pano e outro marretava a cabeça do animal, errando várias vezes, fazendo o animal gritar de dor”, diz trecho do relatório do Ministério do Trabalho.
A primeira ação ocorreu há dois meses, em Nova Cruz. As cidades de João Câmara e São Paulo do Potengi foram visitadas na semana passada.
Relatórios das fiscalizações serão enviados para o Ministério Público, que deve instar as prefeituras a tomar medidas para acabar com a exploração do trabalho infantil.
A fiscalização afirmou que os matadouros devem ser interditados por não cumprirem regras mínimas de higiene.
Quantas matérias importantes, amigos anônimo, obrigada!
Geo, eu pensei muito nisso que você falou. Quantas coisas não consumimos e que tem trabalho infantil?
Carvão do churrasco?
Cana de açúcar?
Plantações em geral…?
Somos coniventes, omissos, ignorantes?
O que podemos fazer?
Vou dar uma olhada no site da Abrinq que em um selo que premia empresas que não usam trabalho infantil.
Beijos!
Renata, eu já contei aqui que grávida numa festa, uma “parenta” da noiva, mandou eu ficar em casa se não queria que fumasse perto de mim…risos…
Coisa de louco…o vício queima o bom senso do cérebro…
OMS pede proibição total da propaganda de cigarro
Virgínia Hebrero
De Genebra
A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu nesta sexta-feira que os Governos proibam qualquer tipo de propaganda, inclusive indireta, do cigarro, um produto que mata metade de seus consumidores.
O pedido acontece por ocasião do Dia Mundial sem Tabaco, comemorado em 31 de maio, e que este ano tem como foco a juventude, assim como a denúncia das campanhas multimilionárias das empresas de cigarro para atrair este setor da população através de técnicas de mercado.
O objetivo é proteger 1,8 bilhão de jovens no mundo, os mais vulneráveis a essas táticas que, em palavras de um especialista da OMS, se assemelham a “um vírus mutante”, pois quando desaparece em um lugar se reproduz em outro.
Metade dos fumantes morre precocemente, afirma o pneumologista Ciro Kirchenchtejn, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo e coordenador do Centro de Tratamento do Tabagismo
“As medidas pela metade não servem para nada. Quando se proíbe uma forma de publicidade, a indústria do tabaco redireciona seus recursos em direção a outras formas”, denunciou em entrevista coletiva o doutor Douglas Bettcher, responsável da Iniciativa Sem Tabaco da OMS.
“É como um vírus mutante, sempre encontra outras formas de chegar”, insistiu o especialista, defendendo que os Governos “imponham uma proibição total para fazer a estratégia de comercialização do tabaco fracassar”.
Combinação de tabagismo e anticoncepcional pode ser fatal para o coração
Estudos apontam que o consumo de 15 cigarros por dia aliado ao uso da pílula anticoncepcional aumenta em 20 vezes o risco de doença cardiovascular, alertam especialistas em ocasião ao Dia Mundial Sem Tabaco, 31 de maio. Para a Organização Mundial de Saúde, pílulas combinadas (que contêm estrógeno e progesterona) não devem ser consumidas por mulheres fumantes acima de 35 anos. Segundo o cardiologista José Roberto Barreto isso acontece “porque a nicotina ajuda na agregação de plaquetas e os hormônios facilitam a formação de coágulos. Ou seja, o fumo aliado a esse tipo de droga pode estimular a coagulação e, conseqüentemente, o entupimento das veias”. Para aquelas que ainda não conseguiram deixar o fumo, os métodos contraceptivos mais indicados são os que contêm somente progesterona.
SBC faz abaixo assinado pela proibição do fumo em ambientes fechados
A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) vai coletar, em todos os estados do Brasil, assinaturas para aprovação da lei de proibição do fumo em ambientes fechados públicos e privados. A iniciativa é parte da mobilização que acontece neste sábado, 31 de maio, Dia Mundial Sem Tabaco. O diretor da SBC Rui Ramos, lembra que a Lei Federal n. 9294 já proíbe o fumo nesses locais, mas não determina que todo o ambiente seja livre de tabaco. E, para ele, os fumódromos não são garantia de proteção contra os efeitos nocivos do fumo passivo. O tabagismo aumenta em até 300% o risco de um ataque cardíaco, além de provocar inúmeras outras doenças, sendo a maior causa evitável de mortes no mundo. E, segundo outro diretor da SBC, Aristóteles Alencar, “somente a proibição total e abrangente poderá reduzir o consumo de tabaco e evitar os efeitos do fumo passivo”.
Se formos pensar em todo o mal que fazemos ao mundo com cada coisinha que consumimos…
Por exemplo:
Aquele ouro do anel que está em nosso dedo pode ter vindo de homens e crianças explorados em Serra Pelada e semelhantes.
Aqueles produtos importados, baratinhos e descartáveis, podem vir da exploração de chineses.
O cigarro é mais um exemplo de que cada consumo desnecessário ou gesto impensado pode prejudicar alguém adiante e um dia voltará para nós. O que se planta é o que se colhe.
Se ainda cheirasse a morango é ótimo, Ana…
O cheiro é podre, é verdade. Quando estava gávida uma vez cheguei a sentar e em seguida sair de um restaurante porque tiveram a coragem de me colocar numa mesa ao lada da mesa de fumantes.
Beijo
Renata
Renata, eu sou suspeita prá falar. Nunca fumei, não gosto de cigarro. Me incomoda demais. Sou daquele tipo: fumaça de cigarro me persegue…
E não consigo sentir gosto de comida, respirar direito, me sinto fedida quando percebo que minha roupa e cabelo estão fedendo a cigarro. Acho um desrespeito.
E não adianta, por mais amigo, mais parente que seja, quando quer fumar, vai pro canto, joga a fumaça pro lado, mas cigarro é uma fumaça que consegue até descer. E não há criança pequena que impeça o fumante e ele acha que se recolhendo perto da janela resolve.
Claroq que não crio caso sempre mas que não gosto, não gosto. Tem horas que tenho que aturar, mas fico longe.
Sei que o vício é muito forte mas isso não dá o direito de poluir o ar que os outros respiram. Ainda mais aqueles que não fumam. Afinal, para piorar, o cheiro é horrível…se ainda cheirasse a morango….
Imagina então se legalizássemos o comércio e o consumo de drogas…a gente pensa muito nessa hipótese como uma forma de acabar com o crime organizado, mas ao olhar para a indústria tabagista (assim como outras indústrias tb) dá um desânimo…sempre tme algo de errado, sempre tem um desrespeito com a vida humana, com o meio ambiente…
Acho válido o boicote tanto ao cigarro quanto a outros bens de consumo que tb sejam produzidos mediante exploração e falta de respeito criminosas.
Mas, sabe, sempre fui contra o excesso de patrulhamento com os fumantes…já fumei e mesmo hoje, quase 4 anos depois de parar, não me incomodo que fumem perto de mim, desde que não seja em ambiente fechado, afinal ninguem merece não fumar e ficar com a roupa e o cabelo impregnados com aquele cheiro…
Beijo
Renata
Jack, obrigada pelo presente.
Asociedade me desanima muito porque a maioria não se importa e o restante , na maioria dos casos, simplesmente fala e não faz nada. Ou só reclama. Os jovens de hoje ainda não estão tão conscientes como queremos acreditar e o futuro está de fato nas mãos dos pais das crianças pequenas. Espero que nós sejamos em números suficiente para criar uma geração mais consciente e questionadora.